Stoker x Van Helsing (2026)

Vladimir Volkov Stoker é um vampiro que carrega o peso de uma linhagem lendária e a "intercorrência genética" de ser caçado pela família Van Helsing desde o século 14.

No entanto, seu problema atual é muito mais pessoal: sua ex-namorada, Victoria Van Helsing, está decidida a cumprir a missão de seus antepassados após Vlad ter cometido o erro imperdoável de esquecer o aniversário dela.


Você provavelmente conhece a história do Conde Drácula. Um primo distante ganhou bastante dinheiro na Inglaterra vitoriana quando a escreveu, mas como acha que ele conseguiu ser tão preciso com aquela mitologia vampírica?

É muito simples; ele conhecia as histórias da família, mesmo que o lado dele não tenha sofrido com a nossa pequena… intercorrência genética.

Mas de que adianta remoer o passado, não é? Estamos no século 21, e o meu único problema — além de precisar fugir do alho e da luz do sol — é lidar com Victoria Van Helsing, descendente da famosa linhagem de caçadores que um dos meus primos se apropriou na adorável narrativa dele. Que sorte a minha.

— Vlad, é melhor se apressar. Consigo sentir o cheiro dela na floresta. Não está longe.

Ah, esse aí sou eu. Vladimir Volkov Stoker — mas o meu pai só me chama de Vlad, que, a propósito, é quem me chamou no parágrafo anterior. Ele se chama Sebastian Corvinus Stoker III.

A verdade é que estamos fugindo dos Van Helsing desde o século 14. Para uma família de mortais, eles são muito persistentes em fazer questão de perseguir a mesma família de vampiros há tanto tempo.

A esperança acabou quando descobrimos que a missão de matar vampiros, criaturas da noite, ou seja lá como nos chamam, era passada de geração a geração, o que significava que não importava quantos Van Helsing morressem no decorrer das eras, mais uma geração surgiria para continuar nos caçando. Eles fizeram questão disso.

Deve estar se perguntando: “Mas Vlad, se vocês são todos vampiros sugadores de sangue, por que não mataram a família Van Helsing?”. 

É simples. A gente não pode matar humanos.

Você leu certo. Não podemos matar humanos. Não é uma questão de não querer (tipo os vampiros de Crepúsculo); nós literalmente não podemos. Beber sangue humano é o equivalente a usar drogas e morrer de overdose enquanto come alguma coisa estragada. Se eu quiser morrer, é preferível usar uma estaca e fogo a beber esse sangue humano imundo.

O problema é que os Van Helsing não acreditam nisso. Por eras nossa família tentou uma trégua com eles, mas nada adiantou. Quando parecia que eles iam aceitar, era só mais uma armadilha.

Só nos restava fugir. Até que chegou um ponto da nossa existência em que eu achei que não precisaríamos mais fugir, até… bom, isso não vem ao caso.

— A gente vai fugir para onde agora? — perguntei. — Espero que seja para um lugar bem caro, que a herança da Victoria não seja o bastante para pagar uma passagem.

— Até parece que o dinheiro vai ser uma barreira grande o bastante para impedir a Victoria de te matar. A única coisa mais perigosa que uma caçadora Van Helsing é uma caçadora Van Helsing com o coração partido.

E essa é a minha irmã mais nova, a escuridão da minha vida, Seraphina Ravena Stoker. Ela sempre se expressa nas horas mais inoportunas — como essa, em que eu estou claramente tentando contar uma história muito séria aqui.

— Será que ela me perdoa se eu ligar de novo?

— Você esqueceu o aniversário dela. E você é um vampiro. Ela só precisava de uma desculpa para te matar e você deu. — disse Seraphina. — Quem diria, Vlad, a gente ter que fugir porque você foi um péssimo namorado.

Revirei os olhos. Não era para ter chegado agora nessa parte da história, mas minha irmã se adiantou. Como eu disse, a escuridão da minha vida, essa pestinha.

Saímos do apartamento e começamos a correr pela floresta. Esperávamos encontrar um lobo, um cervo ou até mesmo uma zebra se tivéssemos sorte, qualquer animal que pudéssemos matar e usar para despistar Victoria de nós. Mas a nossa audição era acima da média, então conseguíamos ouvir os passos apressados da minha ex-namorada chegando cada vez mais perto.

— Eu tive uma ideia. Vocês vão na frente.

— Que ideia? — meu pai perguntou. Ele não ficava muito otimista quando as palavras “eu tive” e “uma ideia” saíam da minha boca.

— Eu acho que consigo resolver isso com uma conversa.

Meu pai e Seraphina se entreolharam e, após um longo suspiro, assentiram.

— Ok, vamos organizar seu funeral assim que a notícia chegar até nós no Alasca.

Então os dois se teletransportaram para bem longe de mim.

É muito bom ter uma família que nos apoia, não é?

Escondi-me atrás da árvore mais próxima e cruzei os braços, tentando manter uma postura relaxada. Não demorou muito para que eu sentisse o cheiro de Victoria se aproximando. Ela era a única humana que eu conhecia que não tinha o sangue fedorento.

— Corra o quanto quiser, mas lembre-se: eu consigo caçar melhor do que você consegue se esconder.

Sorri abertamente para ela, saindo de trás da árvore. Victoria estava com os cachos loiros parcialmente presos atrás da cabeça e carregava seu arco e flechas — uma herança caríssima da família Van Helsing.

— Olá, meu docinho de estaca afiada.

— Nem começa — ela imediatamente pegou uma flecha e apontou na minha direção. Ela tinha o olhar furioso de uma caçadora louca para me matar. Nossa, acho que estou me apaixonando de novo.

— O que foi? Cansou de ser a rebelde da família?

— Acertou. Foi um erro. Vocês são todos iguais, e eu vou cumprir a missão da minha família. — Ela se aproximou, a flecha bem próxima ao meu peito. — Primeiro eu mato você, depois vou atrás do seu pai, da sua irmã e do resto da sua família.

— Tudo isso porque eu esqueci seu aniversário? — ergui uma sobrancelha. — Não foi minha intenção, meu anjinho da morte. Não costumo comemorar aniversários.

— Para de graça, Vlad! — disse ela, furiosa, franzindo o nariz de um jeito fofo. — Isso não justifica. Datas deviam ser importantes para você, e isso só fez a minha família te odiar mais.

Inclinei a cabeça, observando a flecha encostada no meu peito, como se estivesse avaliando a qualidade do material.

— Em minha defesa… — levei a mão ao coração, dramatizando — eu tenho dificuldade com o conceito de tempo. Séculos começam a se misturar. Às vezes eu nem sei se é terça-feira ou 1873.

— Eu vou atirar.

— Você sempre diz isso antes de fazer alguma coisa impulsiva — sorri, dando meio passo à frente.

A ponta da flecha pressionou mais forte contra mim.

Ótimo. Excelente decisão, Vlad. Continue avançando em direção à morte.

— Não testa a minha paciência.

— Victoria… — abaixei um pouco a voz — você já está aqui há cinco minutos e ainda não atirou.

O maxilar dela travou.

— Isso não significa nada.

— Significa tudo — respondi, mais suave. — Se fosse qualquer outro vampiro, ele já estaria morto.

— Você não é qualquer vampiro.

— Exatamente, meu dentinho de alho azedo.

Ela revirou os olhos, mas a mão que segurava o arco hesitou por um segundo. Só um segundo — mas eu vi.

— Eu deveria ter te matado quando tive chance.

— Teve várias.

— E desperdicei todas.

— Eu chamo isso de bom gosto — dei um sorriso torto.

Ela respirou fundo, claramente tentando recuperar o controle.

— Você mentiu para mim.

— Eu omiti detalhes.

— Você disse que não era perigoso.

— Eu disse que não era perigoso pra você.

— Isso é pior!

— Não, isso é extremamente específico — argumentei. — E tecnicamente correto, que é o melhor tipo de correto.

— Vlad!

— O quê? Eu estou sendo honesto agora. Crescimento pessoal.

Ela puxou a corda do arco com mais força, e dessa vez eu senti — não era só raiva. Era mágoa.

Essa parte era menos divertida.

— Você me fez questionar tudo — disse ela, a voz mais baixa. — Minha família, minha missão… tudo.

Engoli seco. Ok. Terreno perigoso. Muito mais perigoso que a flecha.

— E mesmo assim você veio atrás de mim — respondi, mais sério. — Sozinha.

— Não foi por você.

— Claro que não.

Silêncio.

O vento passou entre as árvores, mexendo os cabelos dela. Por um instante, parecia exatamente como antes. Antes de tudo dar errado.

Antes de eu ser um idiota.

— Você esqueceu o meu aniversário, Vlad — ela disse, mais baixo dessa vez.

Pisquei.

De todas as coisas… era isso que mais doía?

— Eu sei.

— Não foi só isso — ela continuou. — Foi o que isso significou.

Assenti devagar.

— Que eu sou péssimo com datas?

Ela quase atirou.

— Que você não se importa!

Ok. Justo.

Soltei um suspiro, passando a mão pelo rosto.

— Victoria… eu lembro do dia em que te conheci.

Ela hesitou de novo.

— Eu lembro do que você estava vestindo, do jeito que você tentou esconder a estaca na bota como se eu não fosse perceber… — dei um meio sorriso — Lembro que você errou o primeiro golpe.

— Eu não errei.

— Você tropeçou.

— Foi estratégico!

— Claro que foi.

Apesar dela, o canto da boca quase subiu.

Quase.

— Eu lembro de tudo isso — continuei, mais baixo. — Eu só… não sei ser normal sobre essas coisas.

A flecha ainda estava apontada pra mim.

— Isso não muda nada — ela disse, mas sem a mesma convicção.

— Eu sei.

Dei mais um passo à frente.

Agora, se ela soltasse, a flecha atravessava direto meu coração.

— Então atira.

Silêncio.

— Vai — inclinei levemente o queixo. — Cumpre a missão da sua família.

Os dedos dela tremeram.

— Eu estou aqui, não estou? — completei, mais baixo. — Fugir teria sido mais fácil.

Ela me encarou, os olhos brilhando de raiva… e outra coisa.

Pior.

— Você é um idiota.

Sorri.

— Seu idiota.

— Não. — ela apertou os lábios. — Não mais.

Mas ela ainda não tinha atirado.

E, sinceramente?

Isso já era praticamente uma declaração de amor.



>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>

História baseada no prompt: “Corra o quanto quiser, mas lembre-se: eu consigo caçar melhor do que você consegue se esconder.”


Comentários