A Sinfonia do Submundo (Degustação)

 Leia gratuitamente o primeiro capítulo do meu livro A Sinfonia do Submundo abaixo.



1. A festa virou um enterro (ou quase)

Se eu contasse essa história a alguém, provavelmente seria internada em um hospício e não se preocupariam com minha alta, pois nada na ciência poderia justificar tamanha loucura. Mas garanto a vocês, leitores, que tudo isso foi real.

Meu nome é Adalyn Harrington, e essa é a história de como cheguei ao submundo em um estado de semi-morte, após ouvir uma melodia de Tchaikovsky.

Como toda história começa com um dia normal, assim também começou a minha. Havia me levantado cedo como de costume e saído de meu dormitório no campus diretamente para a sala de aula. Eu tinha um seminário para apresentar, que valia metade da nota do semestre. Meu grupo e eu falaríamos sobre James Joyce, mais especificamente sobre sua obra Ulisses, uma releitura de A Odisseia. Estava tudo encaminhado para a apresentação ser absolutamente perfeita, mas meus colegas arruinaram tudo.

Tínhamos datas para apresentar esse trabalho e, justamente para dar tempo o bastante para o grupo se preparar, ficamos com a última data. Eu devia ter previsto o desastre que seria quando o professor de Literatura Moderna sorteou o meu grupo, mas a esperança é a última que morre, certo?

Semanas se passaram com essa apresentação em andamento para que, no exato dia, todos os membros do meu grupo estivessem de ressaca e decidissem faltar coletivamente a aula, sem terem ao menos a decência de me avisarem.

Eu, na tentativa de salvar ao menos a minha nota, pensei em apresentar o trabalho sozinha, mas o professor não permitiu porque “o trabalho era em equipe”. Isso foi o suficiente para arruinar o meu dia.

Após a aula, fui para meu estágio que para a minha falta de sorte, era lá “onde Judas perdeu as botas”. O trânsito estava horrível e eu estava morrendo de medo de me atrasar. Meu supervisor nunca assinava minhas horas quando eu me atrasava.

Quando finalmente consegui chegar na escola, o professor não tinha ido e, como ele não havia me avisado nada e nem me entregado o planejamento do dia, a coordenação me dispensou.

Mais um dia perdido… pensei, enquanto dirigia de volta para o campus, decidida a me afundar na cama e não me levantar até o próximo dia, mas sabia que, no fundo, não era isso que eu ia fazer. Afinal, eu tinha muitas resenhas para escrever de todas as oito disciplinas que estava pagando naquele semestre, além de me preparar para as avaliações que chegariam em breve.

Eu estava mentalmente exausta e minha vontade era jogar tudo pelos ares, trancar o curso, tirar o pouco dinheiro da minha poupança e viajar para um lugar em que não houvesse sinal de wi-fi. Mas depois de passar quase três anos frustrados prestando vestibular para Direito (como meus pais queriam), e na metade do caminho desistir e optar por Literatura Inglesa (minha escolha), eu não estava disposta a recuar de jeito nenhum!

Ao chegar no dormitório, por volta das dez da noite, encontrei minhas colegas de quarto, Catherine e HaYoon, se aprontando para alguma festa. Catherine era aluna de psicologia, e HaYoon estudava relações internacionais mas, na minha sincera opinião, eu as via conversando mais sobre as festas no campus do que sobre suas grades curriculares. Elas sempre insistiam para que eu fosse com elas, mas eu sempre recusava. Não tinha tempo e nem paciência para ir nessas festinhas, e sempre tinha que ouvi-las dizendo que eu não sabia aproveitar a vida e que não teria histórias emocionantes para contar aos meus netos e coisas desse tipo.

Mas naquela noite elas estavam insistentes como nunca vi antes, e acabaram me vencendo pelo cansaço. Nem me arrumei para ir... Fui do jeito que havia chegado no campus e, como imaginei, passei quase a festa inteira sentada perto do balcão de bebidas. É agora que a história começa a ficar interessante...

Estava prestes a ir embora, quando um veterano que eu nem conhecia me abordou na saída da festa. Seu hálito estava fedendo a álcool e ele estava bastante fora de si. Geralmente, aquela situação me assustaria e eu sairia dela de um jeito mais discreto e menos impulsivo para não chamar atenção para mim, mas eu estava no limite da paciência naquela noite. Então quando aquele universitário bêbado segurou meu pulso na tentativa de me puxar para perto, eu acertei seu nariz com tanta força, que o sangue dele jorrou pelo meu punho fechado.

Agi impulsivamente, movida pela raiva que vem me acompanhado desde o início do semestre e que vinha guardando para mim mesma durante todo o tempo. Mas não me arrependi do que fiz, especialmente sabendo que se não tivesse feito aquilo, não viveria a aventura mais bizarra e maravilhosa da minha vida.

No fim das contas, aquele aluno não estava tão fora de si como supus a princípio. Porque, enquanto eu esperava o sinal fechar para atravessar a rua, aquele imbecil me empurrou, no mesmo instante em que um carro vinha em alta velocidade.

E foi assim, que eu morri.

Ou pelo menos, foi assim que achei que tivesse morrido.

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