A Vingança de Aurora Hansen (2026)

 


“Quão inescrutáveis são os caminhos da Providência — por qual propósito grande e misterioso aprouve ao Céu humilhar o homem outrora tão elevado, e erguer aquele que foi tão humilhado?”

— O Conde de Monte Cristo, Alexandre Dumas

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Sinopse

O passado nunca foi esquecido.

Infiltrada na elite que a destruiu há vinte anos, Aurora Hansen usa o poder de segredos antigos para derrubar seus inimigos como peças de um dominó. Em uma única noite de luxo e revelações, a justiça finalmente chega para quem achava que estava acima da lei.

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São Paulo, 2036.
Aurora Hansen

Meu estômago revirou no momento em que Lars e eu entramos na mansão Lumière. Já fazia muito tempo…

Embora meu marido e eu tenhamos arquitetado tudo nos últimos vinte anos com muito cuidado, a sensação de estar de volta no local onde perdi tudo de forma tão humilhante ainda era devastadora.

— Tem certeza de que quer fazer isso, min kjære[1]? — Lars perguntou, cuidadosamente colocando o casaco de veludo sobre os meus ombros.

Ele me conhecia melhor do que ninguém; sabia como eu estava aflita, apesar de fazer o máximo para esconder. Como minha tia Helena me ensinou, minhas emoções deveriam ser reservadas unicamente aos meus entes queridos. Mas, no mundo exterior, eu precisava construir muros.

— Sim — disse, endireitando minha postura. — Estou. Esperei muito tempo por isso.

Lars assentiu e suspirou entediado. Era uma de suas manias, algo com que eu havia aprendido a me acostumar após 18 anos casada com ele.

A Providência tinha um senso de humor interessante, pois 20 anos atrás, quando meu mundo desmoronou e eu fui afastada do único homem que eu achei que pudesse amar, eu conheci Lars, que se mostrou um amigo, um parceiro e um marido muito mais leal do que o meu ex jamais foi.

Eu não tinha qualquer interesse em me vingar de Miguel Hernandez. Ele era um passado morto e enterrado para mim e que não valia a pena o meu esforço. No entanto, eu não podia dizer o mesmo sobre a mulher que se casou com ele.

Mas ela era meu último alvo. Depois que eu derrubasse os anfitriões, seria como um efeito dominó e todos cairiam sob meu olhar.

Assim que entramos na mansão, os empregados da família Lumière se ofereceram para pegar os nossos casacos, mas eu e Lars os dispensamos.

Logo, a anfitriã foi nos receber.

— Sr. e Sra. Hansen! — disse Valentina Lumière com um sorriso amável. — É um grande prazer finalmente conhecê-los oficialmente.

Valentina falava conosco com um inglês impecável e estendeu a mão para nós, mas nem eu, nem Lars a cumprimentamos de volta. Meu marido, entretanto, sorriu, com seu característico charme escandinavo.

— Não há necessidade de falar em inglês, sra. Lumière. Tanto eu, como minha esposa, falamos e entendemos o seu idioma perfeitamente.

A surpresa no rosto de Valentina foi algo que eu já estava esperando. Algo que aprendi no breve período que estudei com aqueles idiotas em São Paulo era que eles achavam que estavam acima de todos por causa da posição social privilegiada que tinham. Por isso, faziam questão de sempre mostrar que sabiam muito, e isso geralmente incluía falar idiomas estrangeiros como se fossem nativos.

Naturalmente, a lista de idiomas estrangeiros que eles se arriscavam a falar não incluía o norueguês.

— Bom… melhor ainda, eu imagino! — disse Valentina, ainda sem jeito. — Por favor, fiquem à vontade.

Sorri para ela enquanto a observava sair. Assim que ela se afastou, olhei para Lars.

— Valentina Lumière. Lembra o que eu disse sobre ela?

— Como esquecer? — ele sussurrou em norueguês. — Você não teria ido para Oslo se não fosse o que ela fez.

— Não, não teria — olhei ao redor, analisando o salão principal como se estivesse lutando em uma guerra, até que consegui avistá-lo. — E a causa foi aquele ali.

Apontei discretamente para um homem que conversava próximo à mesa de bebidas. Estava mais forte do que eu me lembrava, mas ainda tinha aquele olhar arrogante. Algumas coisas realmente não mudavam.

— Ah… Pietro, não é? O bastardo dos Lumière.

— Exatamente.

— Parece que a manipulação dele em cima da irmã mais nova deu frutos. Ele parece bem posicionado dentro da elite de São Paulo.

— Sim, e as coisas ainda permanecem as mesmas. Veja como os dedos de Valentina tremem enquanto ela segura a taça de vinho, e como o olhar dela desvia várias vezes em direção ao irmão. — Olhei de volta para Lars — Estevão morreu guardando esse segredo. Não suportava a ideia de alguém descobrir sobre o filho bastardo dele.

— Mas a Valentina não vai — Lars sorriu, colocando a mão em minha cintura. — Fique tranquila, skatt[2]. Apenas me mostre os outros.

Estava prestes a fazer isso, quando um vulto de cabelos escuros se aproximou de mim, abraçando-me alegremente.

— Sra. Aurora Hansen! Fico muito feliz que tenha vindo!

Sorri para a garota que me abraçou. Ela tinha cabelos cacheados e castanhos, como os que eu tive na juventude. Era a segunda vez que eu a via.

Clara Monteiro Hernandez era a filha de Miguel com Fernanda Monteiro.

Uma das minhas vítimas.

— Clara, é um prazer vê-la novamente. Obrigada por ter falado de mim para a sra. Lumière, foi um prazer ser convidada para um evento como esse.

— O que você e o sr. Hansen, estão achando de São Paulo? — ela perguntou, com o olhar curioso e cheio de expectativa.

— Quente — disse Lars, se abanando — mas é tolerável.

— Meus pais querem muito conhecê-los — disse Clara, sem desfazer o sorriso. — A sra. Albuquerque também. Sim, eu fiz questão de falar de vocês para todos aqui. Era o mínimo que eu poderia fazer.

— Como assim, Clara? — perguntei, embora soubesse a resposta.

— Vocês salvaram a minha vida. Eu podia ter morrido naquele acidente com o esqui.

— Aquilo não foi nada. Faríamos por qualquer pessoa — disse Lars, ainda que tivéssemos monitorado toda a chegada de Clara e soubéssemos, graças a alguns informantes espalhados pela capital norueguesa, que Clara estava conhecendo a Noruega e que, pela falta de experiência da jovem, ela provavelmente teria problemas com o esqui. Isso possibilitou que Lars e eu estivéssemos “no lugar certo, na hora certa.”

Quando Clara nos levou até os pais, o cerco estava completamente fechado.

Fernanda Monteiro.

Dandara Albuquerque.

Valentina Lumière.

O trio que, 20 anos atrás, fez com que eu fosse expulsa da Academia Lumière, sob a falsa acusação de ter roubado um gabarito de um importante exame de admissão para a Universidade Lumière.

Naquela época, não consegui entender por que aquilo estava acontecendo. Eu havia conquistado uma bolsa naquela escola de elite por mérito próprio, após ter crescido na pobreza. Estava ganhando cada vez mais oportunidades de crescimento acadêmico e profissional porque me julgavam capaz daquelas conquistas. Mas tudo foi perdido por causa da armação daquelas três.

Quando me caiu a ficha, eu senti ódio. Agora, sentia vontade de rir, porque, de fato, a providência tinha senso de humor. Quem imaginaria que aquela bolsista, que foi expulsa de forma tão humilhante, herdaria uma fortuna tão grande de uma antiga família nórdica?

— Ouvimos falar muito de vocês, sr. e sra. Hansen — disse Fernanda, com um sorriso falso — eu e meu marido não temos como agradecer o suficiente por vocês terem salvado a vida da nossa filha.

Sorri discretamente.

— Não foi nada.

Fernanda não havia mudado muita coisa. Continuava com aquela expressão altiva de garota que foi excessivamente mimada e que, no fundo, ainda achava que estava no Ensino Médio.

Dandara, por outro lado… já estava olhando para Lars com o tipo de interesse que eu havia aprendido a reconhecer. Ela já possuía esse olhar quando éramos adolescentes e certamente foi esse ativo que utilizou para conseguir roubar o gabarito que implantou em minha bolsa naquela época.

— É um prazer conhecê-los também — ela disse com falso carisma. — Nunca conheci ninguém da Noruega pessoalmente antes. Como é lá?

— Frio — disse Lars, colocando um braço ao redor do meu ombro. — As pessoas costumam ser mais discretas e bem mais respeitosas.

Dandara imediatamente abaixou a mão estendida e ficou sem graça, o que me arrancou um leve sorriso.

— Quanto tempo pretendem ficar? — Fernanda perguntou. — Estão fazendo algum investimento aqui?

— Ficaremos o tempo que for necessário — respondi educadamente — e, se não for incômodo para vocês, eu e meu marido preferimos que nossos investimentos fiquem entre nós e o nosso banco.

Tanto Fernanda quanto Dandara beberam seus vinhos, desconfortáveis com as nossas respostas. Logo, Clara voltou, acompanhada do pai. Ela fez as apresentações, mas Miguel parecia paralisado.

— Querido? — disse Fernanda, tirando-o do transe.

— Sim — ele piscou os olhos e apertou a mão de Lars, que não estava nem estendida. — É um prazer conhecer os dois.

Quando Miguel apertou a minha mão, eu o encarei com educação e indiferença, enquanto percebia seu olhar fixo em mim.

Lars pigarreou.

— Sr. Hernandez, pode, por favor, soltar a mão da minha esposa? Ela está desconfortável.

Miguel soltou a minha mão rapidamente, parecendo bastante atordoado.

— Desculpe… é que você me lembra uma pessoa que eu conheci há muito tempo.

— É mesmo? — perguntei, fingindo interesse.

— Sim. Alguém que se foi há muito tempo.

— Bom, então não sou eu — sorri e olhei para Lars — querido, vamos nos sentar um pouco? De preferência, um pouco mais perto do ar-condicionado?

— Por favor — ele me deu o braço e assentiu educadamente para os outros — foi um prazer conhecê-los.

Fomos nos sentar em uma mesa um pouco mais afastada dos outros e mais próxima do ar-condicionado. Lars nunca tinha vindo ao Brasil, e, por mais que eu tivesse nascido na capital paulista, os 20 anos que passei em Oslo me fizeram perder qualquer familiaridade que eu tinha com minha terra natal.

Minha aparência havia mudado drasticamente, o que era esperado em 20 anos, mas não era só a minha idade que estava me tornando irreconhecível. A falta de sol em algumas épocas do ano removeu o bronze da minha pele, deixando-me mais pálida a cada ano que passava. Além disso, meu cabelo estava diferente.

Quando vivi no Brasil, meu cabelo era cacheado, volumoso e castanho, como o de Clara Hernandez. Mas, com o passar dos anos em Oslo, eu fui removendo, partezinha por partezinha, as lembranças da pessoa que eu já fui. Mantive meu cabelo liso e o descolori, deixando-o um loiro um pouco mais claro que o cabelo de Lars.

Minha postura também havia mudado muito, assim como a minha forma de falar. Tudo isso, eu devia à família de Lars e, principalmente, à minha tia Helena. Se ela não tivesse conquistado o próprio espaço dentro da elite escandinava tantos anos antes, eu certamente não teria nenhuma das oportunidades que tive desde que fui expulsa da Academia Lumière.

— E aí? — perguntou Lars, servindo uma taça de vinho para mim. — Como se sentiu ao ver Miguel de novo? Ele mudou muito?

Dei de ombros com indiferença.

— Ele não tem cara de quem sofreu por muito tempo.

— Mas pareceu ter visto um fantasma — Lars sorriu com divertimento, mas logo ficou sério. — Ele que não se atreva a tentar algo com a minha esposa.

Revirei os olhos enquanto Lars beijava as costas da minha mão.

— Você sabe que só tenho olhos para você.

— O melhor é que, quando isso acabar, vamos começar um novo capítulo.

Assenti com um sorriso esperançoso. Por vezes me senti mal por arrastar Lars para a minha vingança, mas ele nunca demonstrou insatisfação. Sempre dizia que era uma questão de honra, e me ajudou a conseguir todos os recursos para que estivéssemos aqui hoje; um leilão beneficente organizado pela família Lumière, onde todas as minhas inimigas estariam reunidas, e onde toda a reputação delas ficaria manchada para sempre.

— Sempre me divirto em leilões — disse Lars, analisando o ambiente ao seu redor — mas acho que será difícil bater esse aqui.

* * *

O leilão foi entediante — assim como vários dos que já frequentei. Lars e eu fizemos alguns lances por puro tédio, mas, no geral, as coisas lá não tinham tanto valor para nós.

Valentina Lumière gastou muito dinheiro para cobrir aquele evento. Toda a imprensa estava lá, já que, em teoria, era um evento para arrecadar dinheiro para a caridade. De dois em dois anos os Lumière faziam isso, mas eu descobri que nenhuma instituição realmente se beneficiava daqueles valores. Era tudo fachada.

Eu e Lars só acabamos convidados porque Clara foi o nosso ingresso. Depois que a salvamos em Oslo, nós a convidamos para almoçar conosco, e ela percebeu que éramos ricos. Sabendo que isso se espalharia, mencionamos uma viagem “de férias” para São Paulo, e o resto correu exatamente como o planejado.

Valentina Lumière, sempre disposta a ampliar suas relações em prol do próprio sobrenome.

Dandara Albuquerque, uma alpinista social com o caráter mais nojento que já vi na vida.

Fernanda Monteiro, uma herdeira esnobe que sempre precisava ser o centro das atenções.

As três, ansiosas para me conhecer, sem saber quem eu sou de verdade.

— Lars — toquei o braço dele, que estava quase cochilando — quando Valentina nos chamar para anunciar os nossos itens de leilão, você me deixa falar, entendeu?

— Mas isso é óbvio — ele bocejou — e daqui nós pegamos o avião direto para Oslo.

— Me pergunto se elas vão tentar algo contra nós depois que tudo cair por terra.

— Até parece — ele bufou. — Depois do que vamos revelar aqui, dificilmente elas vão conseguir fugir das grades. E se fugirem… eu já cuidei disso.

Ergui uma sobrancelha.

— O que você fez?

— Depois de hoje, cada passo delas será monitorado pela polícia escandinava. Como a mídia internacional já está ciente dos escândalos, é só uma questão de tempo até os passaportes serem invalidados e todas as contas internacionais serem bloqueadas. — ele deu de ombros — Foi só uma lembrancinha, nada demais.

— Não sei por que ainda me surpreendo com tudo isso.

— Ora, nós somos os von Hansen. Essas pessoas aqui são ricas, exibicionistas e só fingem que conhecem o poder. Mas o mundo pertence àqueles que sabem como ele atua nos bastidores. Isso é algo que eles nunca vão conseguir. Lembra do que o meu pai dizia?

— As pessoas que sabem como o poder funciona sabem fazer movimentos lícitos e estratégicos para não se comprometerem. Mas as pessoas que o desconhecem acreditam que seus ativos estão acima da lei.

— E essa é a maior falha deles. Você aprendeu bem, Skatt.

Sorri orgulhosa.

— Eu tive ótimos professores.

* * *

Finalmente, Valentina interrompeu o leilão e pegou o microfone.

— Obrigada a todos que puderam comparecer ao nosso leilão beneficente! Desde que a família Lumière deixou a França e veio ao Brasil 50 anos atrás, ela se dedica a uma educação de qualidade e ao apoio às comunidades carentes. É com muito orgulho que eu anuncio que todo o dinheiro arrecadado nesse leilão será doado para a ONG Azul de Lear, com quem tive o prazer de colaborar há mais de dez anos.

Todos aplaudiram, incluindo eu e Lars, pois, se não o fizéssemos, acabaríamos chamando muita atenção.

— E agora… — Valentina olhou diretamente para mim, com um sorriso orgulhoso. — Eu quero apresentar a vocês uma família muito importante que hoje nos agracia com a sua presença. Eles irão leiloar um item misterioso e de valor altíssimo para nossa instituição. Por favor, uma salva de palmas para Lars e Aurora von Hansen!

Levantei-me, e Lars fez o mesmo em seguida.

— Você não precisa ir, posso fazer isso sozinha — sussurrei.

— Sei que pode. Mas quero estar ao seu lado quando fizer isso.

Minha garganta quase se fechou ao ouvir aquilo. Ainda me surpreendia como, mesmo depois de todos aqueles anos, Lars ainda despertava em mim as mesmas emoções de quando nos conhecemos com apenas 18 anos.

— Obrigada.

Ele segurou a minha mão e caminhamos até o palco. Um laptop já estava posicionado na mesa em frente a Valentina, projetando a logomarca da Academia Lumière no telão que toda a audiência podia ver.

— Podemos? — perguntei educadamente, olhando para o laptop.

— Por favor, fiquem à vontade.

Lars então a dispensou com um gesto de cabeça e nós esperamos que Valentina se sentasse para que eu pudesse começar.

Inseri o pendrive no computador e deixei os arquivos prontos. Então, com a taça de champanhe na mão, olhei para o público à minha frente. Enquanto falava, eu sentia minha garganta trêmula, mas a voz estava firme.

— Em nome dos von Hansen, eu agradeço pelo convite, sra. Lumière. É um prazer para nós estarmos aqui. Antes de anunciar os nossos itens, no entanto, eu gostaria de fazer um brinde a uma querida amiga brasileira que infelizmente não pôde estar conosco hoje.

Todos ergueram suas taças. Ao meu lado, Lars sorriu como alguém que estava se divertindo muito.

— Um brinde à minha querida Carolina Cardoso!

Enquanto os demais convidados brindavam, eu prestei atenção nas micro-reações de Valentina, Dandara e Fernanda. E, além delas, Miguel e Pietro também foram pegos de surpresa.

— Carolina foi aluna da Academia Lumière 20 anos atrás. Ela entrou na escola como bolsista, mas foi expulsa em seu último ano, sob uma acusação falsa.

Lars segurou firme a minha mão, enquanto meu sorriso se desfazia.

— Sim… não me surpreende que vocês não se lembrem. Carolina foi apagada da história da Academia por causa dessa acusação. Mas ela demorou um tempo para descobrir o complô egoísta e antiético feito contra ela — então olhei para Lars — por favor, querido, anuncie nosso primeiro item de leilão.

— Com prazer, minha querida — ele pegou o microfone. — Nosso primeiro item é o gabarito do primeiro exame de admissão da Universidade Lumière, aplicado no dia 3 de março de 2016.

Ele revelou um documento impresso, guardado dentro de um plástico.

— Por favor, não façam seus lances ainda — ele anunciou e me entregou de volta o microfone.

— Mas que história impressionante, essa da minha amiga Carolina, não é? Mas, por que não contar mais um pouco? Afinal, todos os itens leiloados até o momento tinham uma boa história.

A reação do meu público era impagável, e quanto mais eu falava, mais confiante eu me sentia.

— Esse gabarito tem uma história interessante. Pois, para que a acusação falsa contra Carolina tivesse tanto êxito, um plano teve que ser arquitetado. Infelizmente, o plano não foi muito inteligente. — fiz uma pausa, apenas para sentir a agonia de quem estava me ouvindo. Podia ver Dandara e Fernanda quase ficando verdes de tão enjoadas. — Duas alunas, que não gostavam muito de Carolina, planejaram o roubo do gabarito na véspera do exame de admissão. Mas esse tipo de documento não era fácil de roubar e sair impune, então elas precisavam de uma isca. O que vocês acham que elas fizeram?

Ninguém respondeu.

— Foi muito simples. Uma dessas garotas dormiu com o estagiário que, há meses, flertava, não só com ela, mas com várias alunas.

Comecei a ouvir murmúrios, mas o salão explodiu quando eu mostrei um vídeo no telão.

Esse vídeo mostrava claramente os rostos de Dandara Albuquerque e Pietro Bittencourt se beijando na sala dos professores, antes de saírem juntos do local.

— Isso é calúnia! — gritou Dandara. — Essas… essas imagens são de IA!

— Mesmo? — fingi inocência. — Que estranho, esses arquivos estão com todos os metadados das câmeras e datam exatamente da noite do dia 2 de março.

— Além disso — continuou Lars — nós fizemos uma investigação preliminar para confirmar a veracidade do vídeo. É melhor se sentar, senhora. Minha esposa deseja continuar a história e tenho certeza de que vocês todos querem ouvir.

E todos os presentes demonstraram interesse, exceto minhas vítimas. Fernanda não parava de mexer na aliança, mas Valentina ainda parecia calma. Não iria durar muito.

— Como vocês puderam ver nessas imagens exclusivas, depois que os “pombinhos” saíram, a sala dos professores ficou vazia e destrancada, o que levou a…

Segui para o próximo vídeo, que mostrava, logo em seguida à saída deles, Fernanda entrando na sala e saindo, minutos depois, com uma pasta nas mãos.

Lars pegou o microfone enquanto os vídeos eram exibidos. À medida que ele falava, eu olhava para a expressão aterrorizada de Fernanda, e de Miguel e Clara, que estavam próximos a ela. Afinal, o rosto das imagens era indiscutível.

— Como podem ver nos metadados acima de cada vídeo, há uma diferença de cinco minutos entre as duas gravações — disse Lars — e cerca de 20 minutos de diferença entre a última gravação e a próxima.

A próxima gravação mostrava Fernanda e Dandara no corredor da escola, próximas ao dormitório que compartilhavam. Fernanda ainda estava com a pasta e não podia ver mais nada depois que as duas entraram no dormitório, mas não havia dúvidas. Elas estavam com o gabarito e todos estavam vendo.

Alguns murmuravam palavras como “absurdo” e “ultrajante”. Fernanda teve a decência de permanecer calada, mas Dandara, que continuava pobre de espírito mesmo depois de ter subido de posição como tanto desejava, voltou a esbravejar.

— Esses vídeos foram completamente tirados de contexto! E mesmo que eles fossem verdade, as câmeras da Academia Lumière são propriedade privada!

Lars, mais uma vez, suspirou entediado. Foi nesse momento que Valentina decidiu falar, ainda mantendo a elegância de sempre.

— Se me permite a pergunta, como vocês conseguiram essas imagens depois de tanto tempo? O nosso servidor é altamente criptografado.

— Ah, isso… — levei a mão ao queixo, como se estivesse refletindo sobre algo. — Quando vocês decidiram modernizar a Academia e mover vinte anos de arquivos para a nuvem da ‘Skuld Nexus Security’, não leram as letras miúdas de quem é o acionista majoritário daquela infraestrutura. No caso, os von Hansen. — Bocejei. — Bom, continuando…

— Eu acho que já vimos o suficiente, e nenhum desses itens parece valer tanto assim. Quer causar um escândalo, sra. Hansen? — perguntou Fernanda, finalmente se pronunciando.

— Causar? Mas eu mal comecei.

— Por favor, cortem a transmissão — Valentina solicitou, ao perceber que a situação estava escalando muito rápido. No entanto, a imprensa hesitou.

— Vamos! — ela ordenou novamente.

— Não podemos, sra. Lumière…

— Como assim, não podem?!

— Porque eles trabalham para mim — falei, descendo as escadas — e, se vocês acham que isso acaba aqui, estão muito enganados.

No centro do salão, falei bem alto, para todos ouvirem.

— Quando Carolina Cardoso foi expulsa por supostamente ter roubado o gabarito, ela estava prestes a ingressar na prestigiada Universidade Lumière e estava praticamente noiva do seu parceiro na época. Convenientemente, depois que ela foi expulsa, a vaga na Universidade Lumière foi passada para a sra. Dandara Albuquerque, e o rapaz de quem Carolina estava noiva, casou-se anos mais tarde com a sra. Fernanda Monteiro. — sorri amargamente — Mas, então me perguntei… esse roubo, tão claramente mal planejado, não devia ter resultado em uma expulsão, pois os donos da Academia Lumière claramente encontrariam as brechas. Não é, sra. Valentina?

A mulher começou a empalidecer. Eu podia sentir que Dandara e Fernanda estavam prestes a voar em meu pescoço, mas estavam sendo contidas pelos próprios filhos.

— Bom, o caso estava bem fechado na época. Certamente, meu pai, Estevão, não encontrou as inconsistências que a senhora está alegando.

— Nem olhando as câmeras de segurança? — perguntou Lars. — Isso fez com que eu me perguntasse… Por que Estevão protegeria duas alunas culpadas e puniria uma inocente?

— Então caiu a ficha — continuei. — Estevão Lumière não estava protegendo as alunas. Ele estava protegendo o estagiário. E isso me leva aos próximos itens a serem leiloados.

Voltei para o palco e peguei mais três documentos lacrados.

— A certidão de nascimento original do estagiário, uma certidão de nascimento falsa com o nome da família que o adotou, e os papéis da adoção. Todos esses documentos assinados por Estevão Lumière, pai biológico de Pietro Bittencourt!

O salão explodiu novamente e Pietro tentou sair correndo, mas foi contido por outros homens do local.

— O que, automaticamente, o torna irmão mais velho da sra. Valentina Lumière é herdeira legítima de todo esse legado fraudulento. — sorri vitoriosa — Para esconder o filho bastardo, fruto de um relacionamento extraconjugal com a empregada, Estevão deu um fim à mãe biológica do filho e o levou para outra família criar, sob um acordo de sigilo. Isso porque sua esposa já estava esperando Valentina quando Pietro nasceu, e Valentina deveria ser a herdeira legítima, enquanto Pietro era apenas uma mancha, que sempre soube sua verdadeira origem. A expulsão de Carolina foi apenas um meio para evitar que o segredo fosse exposto… mas parece que não adiantou muito.

— Isso é impossível! — Valentina gritou. — Você não pode saber sobre tudo isso! Carolina não teria como ter te contado tudo isso!

— Tem razão, ela não me contou.

Saí do palco novamente e olhei no fundo dos olhos daquelas três.

— Eu sou a Carolina Cardoso.

Os presentes no salão não sabiam como reagir. Era como se estivessem assistindo a uma novela e não pudessem sequer respirar para não perder o desfecho.

Valentina, Fernanda e Dandara foram tomadas por um medo que era satisfatório de se ver. Elas não estavam mais com raiva. Estavam com medo, porque a pessoa que elas tanto subestimaram se tornou a base do que elas acreditavam possuir.

Aquele era o poder da Providência.

Logo, ouvimos os carros de polícia do lado de fora da mansão, e alguns oficiais já estavam entrando. Lars se aproximou de mim e colocou o braço ao redor da minha cintura.

— Vocês terão contas a prestar — continuei. — É melhor que falem a verdade, porque o que eu exibi hoje não é nem metade do que a polícia e a mídia internacional têm sobre vocês. Considere um ato de misericórdia que eu não tenha exposto a lavagem de dinheiro que você faz com essa ONG fictícia, Valentina. — olhei para Fernanda e Dandara uma última vez — Até nunca mais, imbecis.

Então, Lars e eu deixamos a mansão.

Mas, prestes a voltar para o carro, ouvi uma voz me chamando.

Miguel.

— Carolina!

Me virei para encará-lo, e Lars já estava se colocando na minha frente, mas eu o tranquilizei e ele ficou apenas ao meu lado, olhando para Miguel com frieza.

— Carolina… eu não acredito que seja você.

— Porque não sou eu — cruzei os braços — meu nome é Aurora Hansen. A Carolina morreu 20 anos atrás. Eu sou o que restou dela.

Ele engoliu seco, sentindo-se humilhado. Alguns anos antes eu ainda sentiria pena dele, por também ter sido enganado por Fernanda, mas simplesmente perdi essa capacidade.

— Eu sinto muito… por tudo.

— Devia sentir mesmo! — exclamou Lars. — O pior para Carolina nem foi só a expulsão. Foi o seu abandono. O seu conformismo com a situação e o quão rápido você foi capaz de seguir em frente. Você não a defendeu quando teve oportunidade, então outra pessoa veio e tomou o seu lugar. Espero que isso lhe sirva de lição.

— Lars, está tudo bem — segurei a mão dele e entrelacei nossos dedos. — Cuide da sua vida agora. Espero que Clara seja a sua prioridade de agora em diante. Ela é uma boa menina.

Miguel apenas assentiu, e assim que ele saiu, dois garotos foram nos encontrar. Embora não os tivesse conhecido formalmente, eu sabia que eram Vitor e Ezequiel, filhos de Valentina e Dandara, respectivamente. E eles estavam acompanhados de Clara.

A garota foi a primeira a falar.

— Sra. Hansen, em nome dos nossos pais… nós sentimos muito por tudo que a senhora passou.

— Sim — disse Ezequiel. — Sentimos muito. O que elas fizeram é injustificável.

— Não esperamos que a senhora as perdoe — Vitor continuou — mas saiba que não tínhamos conhecimento de nada disso e não aprovamos esse tipo de comportamento.

Assenti levemente.

— Vocês não têm culpa sobre o que suas mães fizeram. Espero que sejam felizes.

Trocamos um último olhar, e os três saíram, deixando Lars e eu sozinhos novamente.

— Você foi magnífica. Como sempre, min kjære. — Lars beijou o meu rosto e a curva do meu pescoço, fazendo-me sorrir. — Como está se sentindo depois disso?

Suspirei. Foi como previ.

— Foi como a tia Helena disse. A vingança não trouxe conforto ao meu coração. Mas… ela tinha que acontecer, não é?

— Bom… o que está feito, está feito. O que nos resta agora é recomeçar… de preferência, bem longe daqui… Que tal a nossa casa nas montanhas?

Sorri abertamente, sentindo-me cansada pela longa noite, mas satisfeita de alguma forma.

— Eu não pensaria em nada melhor.

Fomos para o aeroporto, onde nosso avião particular já nos aguardava. E, enquanto sentia a aeronave saindo do chão e observava as nuvens escurecidas no céu, eu me despedia pela última vez daquele lugar e do meu passado.

Adeus, Carolina. A Providência finalmente lhe fez justiça.

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[1] “Minha querida” em norueguês.

[2] “Tesouro" em norueguês.


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