Offline (Evoluídos 3) (Degustação)
Leia gratuitamente o primeiro capítulo do meu livro Offline abaixo.
1. LEONARD
Quando o governo de Mordan abriu as fronteiras para os Externos migrarem para cá, eu não achei que as coisas sairiam do controle tão facilmente. Não foi o que pareceu no início.
Aqueles povos medíocres e inferiores chegaram aqui aos prantos. Tudo aqui fazia eles chorarem, porque eles passaram dez anos sem energia. Dez anos. Se eles estavam daquele jeito, não aguentariam nem 2 minutos vivendo na Idade Média. Mas, de início, pareciam inofensivos.
Até que eles começaram a se adaptar à vida em Mordan, e com isso, trazer o lixo deles para cá. A tecnologia antiga deles era prejudicial ao nosso ecossistema e as políticas deles contrastavam com as nossas. Um país estava sempre tentando controlar o outro, entrando em guerras intermináveis — ideológicas e territoriais — e, a meu ver, beirando a hipocrisia. Países “independentes” que se escoram uns nos outros para funcionar? Era patético, para dizer o mínimo.
Mas essa não era a pior parte. Não… a pior parte, foram essas pessoas, com esses pensamentos distorcidos, tentando mudar esse país.
Watriastan, a província onde estava vivendo há dez anos, foi contaminada pela baderna desses povos, fazendo protestos, exigindo mudanças nas políticas de Mordan, e regulamentação sobre o uso de Inteligências Artificiais e tecnologias “anti-privacidade” como os óculos da Siege Sight, e exigindo a volta dos smartphones (tudo bem que eu, Logan e Elliot usávamos smartphones, mas três pessoas usando é diferente de milhares. Seria um gasto de energia sem precedentes).
Apesar dos problemas que tive com meu pai, eu sabia que os óculos não invadiam a privacidade dos usuários. Era Zain McFarland quem invadia através das conexões neurais estabelecidas entre o sistema operacional e os cérebros dos usuários. Mas, graças a mim, ele não tinha mais poderes (e também não se lembrava mais de mim) então os óculos inteligentes eram somente óculos inteligentes. E.R.I.K era uma IA segura, que, apesar de acessar as redes neurais de cada usuário, não armazenava dados pessoais, então não havia vazamentos ou riscos.
E ainda assim, aqueles Externos não aceitavam nossas regras em nosso país, e exigiam mudanças. Eles mesmos não se enxergavam como estrangeiros.
Os Externos podiam fazer todo o inferno que quisessem, mas se nós, cidadãos legítimos de Mordan disséssemos “vocês estão gastando muita energia”, ou “sua gasolina está poluindo o ar”, éramos logo tachados de elitistas, como se a preservação do nosso lar fosse uma questão de classe social. A hipocrisia era palpável, e a frustração se acumulava em meu peito como um fogo prestes a explodir.
Eu odiava aquela gente principalmente pela questão que relato a seguir:
Da mesma forma que condenavam as Inteligências Artificiais, eles condenavam os Evoluídos.
Dez anos atrás, libertei os Evoluídos do controle do meu pai, que, assim como eu, também era um telepata. Ele os controlava para reprimir ou diminuir seus dons, tornando todos inferiores a ele. Zain acreditava que esse era o único jeito de permanecer em “paz”.
Quando os Evoluídos se revelaram, alguns Não Evoluídos se opuseram, pois não compreendiam, mas conforme os anos se passaram, as pesquisas sobre o fenômeno Neuroclasmus se aprofundaram e trouxeram esclarecimento a todos os Mordanianos. Boa parte disso foi por minha causa, pois me formei em Neurociência e conduzi pesquisas importantes sobre o Neuroclasmus — uma ruptura e fusão de neurônios durante a terceira infância que conferia habilidades especiais à criança que passava por esse fenômeno.
Alguns eram Evoluídos superdotados — evoluídos que desenvolviam habilidades fora do padrão, como super audição, alta resistência física, escrita rápida, alto processamento de informações, e geralmente, uma inteligência quase sobrenatural. Não existia um padrão. Todas essas habilidades eram controladas pelo cérebro que sofreu o Neuroclasmus, por isso o fenômeno era inteiramente neural, e não genético.
Entretanto, eu me enquadrava em uma categoria mais restrita, que ainda estava sendo estudada: Evoluídos ultra aprimorados. Essa categoria de Evoluídos, era destinada a pessoas cujas habilidades neurais eram superiores, e capazes de influenciar diretamente a realidade física. Os leigos as consideravam “super poderes”. Eu era um telepata. Meu amigo, Elliot Barnes, era metalocinético — o que significava que ele podia controlar campos magnéticos, objetos de metal e metais corporais — e Logan Anderson, meu antigo professor da época da escola, era um metamorfo, que se transformava em animais.
E aqueles povos… aqueles povos nos viam como monstros. Eles nos consideravam perigosos.
Eu os observava, os Externos, aqueles olhos estreitos, cheios de desconfiança e de julgamento. Eu era um monstro para eles. Eles não viam que, em essência, éramos todos iguais. Eles se diziam ser os oprimidos, mas sequer tentavam entender a verdadeira natureza do que acontecia em Mordan. Estavam tão ocupados em recriar os próprios erros, em manter os ciclos de revolução e caos que haviam vivido em seus países de origem, que não viam o que nós já havíamos conquistado. A paz aqui não era perfeita, mas era nossa.
E foi aí que a situação ficou ainda mais insustentável. A pressão aumentava, e, como se já não bastasse a bagunça nas ruas e os protestos constantes, eles começaram a atacar os Evoluídos. Não eram mais só palavras duras ou críticas infundadas. Estavam criando um movimento contra nós. Exigiam que os nossos direitos fossem revogados, que fôssemos caçados e contidos, como se fossemos uma ameaça à sua “nova ordem”. Tudo em nome da “igualdade” — mas que tipo de igualdade era essa na qual a aceitação só era dada aos que se encaixavam no molde que eles desejavam?
Eu me perguntava, em noites de insônia, se havia sido um erro liberar os Evoluídos do meu pai. Se, talvez, não fosse mais fácil manter as coisas sob controle, como ele sempre tentou. No entanto, ao mesmo tempo, sabia que isso não era uma questão de controle, mas de liberdade. De verdadeiramente sermos quem somos. Eles, os Externos, simplesmente não compreendiam isso. Ou pior, não queriam compreender.
O que eles não sabiam, é que eu podia, sim, ser perigoso. E o dia em que isso acontecesse, eles iriam implorar de joelhos para voltarem ao seu mundo decadente… ou para que eu os destruísse.

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