Lágrimas de Vidro (2025)

Em um mundo onde cada emoção negativa gera fragmentos de cristal dentro do corpo humano, Brian aprendeu a sobreviver fingindo estar bem. Mas anos de repressão o levaram à beira da morte — até que um reencontro com sua melhor amiga o faz revisitar a infância perdida e descobrir que sentir, de verdade, pode ser sua única salvação.


O conformismo era sem sombra de dúvidas a maior falha da humanidade. Mas, infelizmente, era o que os mantinha vivos.

Ao nascerem, os bebês precisavam ser condicionados a uma câmara de supressão de choro, pois a menor lágrima que saísse deles poderia colocá-los em risco. Isso porque cada emoção negativa criava no ser humano um fragmento de cristal que, se perfurasse um órgão vital, causaria morte instantânea. Era impossível saber onde aquele pedaço de vidro surgiria, então o mais seguro era evitar essas emoções.

Mas ser seguro, não significava que era fácil. Brian descobriu isso da forma mais dolorosa possível.

Para Brian, sempre foi muito fácil ser feliz. Ele era o tipo de rapaz que era sempre visto sorrindo, mesmo sem motivo. O que poucos sabiam, é que sua felicidade tinha uma fonte: sua melhor amiga, Mia.

Mia e Brian nasceram no mesmo ano, mesmo dia e mesma hora. Seus pais eram melhores amigos, e por consequência ou por destino, eles também seriam.

A infância da dupla foi, como muitos chamariam, dourada. Nenhum fragmento de cristal os atingia, e eles sentiam que podiam vencer tudo e qualquer coisa.

Então… eles cresceram e a distância veio naturalmente quando Brian e sua família mudaram de cidade.

Aquela foi a primeira vez que Brian se sentiu triste de verdade. Não só porque estava se distanciando de uma amiga, mas porque se afastava de tudo o que sempre conheceu, em prol de “um recomeço”. Recomeço para quê? Ele se perguntava.

Brian tinha 15 anos quando isso aconteceu. Quem era ele para decidir por si mesmo algo que seus pais já haviam decidido sem sequer considerar o que o filho estava deixando para trás?

Bom, pais são assim. Acreditam que levar o filho a outro lugar e esperar que ele simplesmente se adapte e aceite é comum em todas as famílias. Mas essa decisão inicial custaria muito caro no futuro.

Brian não se deu bem na nova escola. Ele tinha discalculia não diagnosticada, mas seus professores na nova cidade acreditavam que era apenas desleixo, que ele era preguiçoso. E seus novos colegas de classe, pensavam o mesmo e zombavam dele. Mas, como seus pais diziam, ele precisava “se conformar” e “não ligar” para que não saíssem fragmentos de cristal em seu corpo.

Esse conformismo, entretanto, foi prejudicial para Brian. Quanto mais se conformava, mais maldosas eram as pessoas ao seu redor, e mais amargurado Brian se tornava a cada dia. Mas ele se recusava a chorar, a demonstrar qualquer tipo de fraqueza.

Percebeu que estava doente, quando a primeira lágrima de vidro surgiu em seu rosto, 12 anos após ter ido para aquela cidade. Naquele dia em particular, Brian nem estava triste. Ele havia ido ao trabalho, voltado para casa — já que agora morava sozinho — e estava se preparando para ir dormir. Uma rotina monótona se me permite dizer.

O vidro que caiu de seu olho se quebrou na pia. Ele se olhou no espelho e sentiu os pequenos fragmentos se formando em sua linha d’água. Aquilo não era bom, ele precisava ir ao médico.

***

— Quando isso começou a aparecer? — perguntou o médico.

— Na noite passada. Sei que as emoções negativas se manifestam assim, mas eu estava bem. Por isso fiquei preocupado.

O médico, um senhor de cabelos grisalhos e óculos, assentiu levemente.

— Entendo. Vou te passar um raio-x. Pode ser alguma condição interna.

Naquele mesmo dia, Brian fez o raio-x. Na semana seguinte, voltou para o médico com as imagens.

— Então, doutor? O que pode ser isso?

O médico examinou as imagens em silêncio e após alguns minutos olhou seriamente para Brian.

— As lágrimas de vidro apareceram de novo na última semana?

Brian suspirou. Não havia pensado em mencionar isso, mas agora que o médico havia perguntado, era melhor não omitir nada.

— Acordei com algumas na cama.

— Entendi. E não sabe de onde vieram?

— Não senhor.

— Muito bem… — o médico então mostrou as imagens para Brian — Você sabe que os fragmentos se manifestam quando a pessoa experimenta uma emoção negativa. Eles perfuram a pele e saem. Dependendo de onde for, pode perfurar um órgão.

— Sim, eu sei.

— Mas o que acontece com você é diferente. O seu corpo está coberto de fragmentos de cristal, Brian. Tem fragmentos por toda a parte e não tem mais espaço para eles.

— Como assim? Eu… eu não entendo…

— Esses fragmentos foram se acumulando dentro de você ao longo dos anos. Eles nunca saíram, porque você nunca os colocou para fora. Está vendo todo esse esbranquiçado? Isso não é efeito do raio-x. É o que há de vidro dentro de você.

Brian não soube o que dizer. Aquelas imagens pesaram em sua consciência. Anos de emoções reprimidas levaram àquilo.

— Não consigo entender. Eu me conformei a tudo. Por que isso aconteceu?

— Talvez você não tenha se conformado de verdade, Brian. Você só fingiu. Quando nos conformamos, conseguimos seguir em frente. E é possível que isso não tenha acontecido com você.

— E o que explica esse vidro saindo dos meus olhos?

— Seu corpo não aguenta mais segurar as emoções, Brian. Está pedindo socorro. E se você não o ouvir… as coisas podem ficar muito piores.

O médico falava com compaixão, mas a mensagem era muito clara: Brian estava à beira da morte.

***

Tudo tinha uma explicação: era aquele lugar. O lugar de recomeço foi a sua ruína, e o motivo pelo qual sua morte estava se aproximando. Ao chegar em casa, Brian começou a chorar.

Chorar de raiva.

Ele deixou que o sentimento o preenchesse por completo e logo, seu quarto estava cheio de pedaços de vidro. Suas lágrimas de vidro.

Se essa era a única forma de sobreviver, então essa era a emoção que ele demonstraria.

Com o passar dos meses, ele preencheu milhões de diários com seus pensamentos mais negativos, e no próximo raio-x, quase todo o vidro havia saído de seu corpo. Mas o seu coração havia diminuído de tamanho. Ele não era mais o mesmo, e colocou em sua cabeça que nunca seria enquanto não recuperasse o que havia perdido.

***

Brian passou oito horas ininterruptas no trem apenas para ir à praia.

Sua cidade natal era muito longe de onde ele estava, mas ele precisava retornar às suas raízes depois de 12 anos vivendo naquele lugar desprezível.

Ao chegar lá, foi até a praia onde seus pais e os pais de Mia os levavam para brincar. Havia anoitecido e o silêncio preencheu Brian completamente. Ele se sentia seguro no lugar de onde nunca devia ter sido tirado.

— Brian?

O rapaz se virou ao ouvir seu nome sendo chamado, e seus olhos se arregalaram ao reencontrar sua velha amiga depois de tantos anos.

— Mia?

— Sim, sou eu! Nossa, nós não nos vemos há tanto tempo! Quando você chegou?

— Há uns… 20 minutos. — Ele mostrou as malas na areia.

Brian e Mia haviam mudado muito, mas ao se reencontrarem, foi como se o tempo não tivesse passado.

— Como estão seus pais? — perguntou Mia, se sentando na areia ao lado de Brian.

— Conformados. Como sempre.

— Os meus também. Mas tudo ficou diferente depois que vocês foram embora.

— Diferente como?

— Bom, eu não tinha mais com quem me divertir, então acho que só segui com a vida como ela tinha que ser. Não tinha muita opção.

— Entendo.

— Como são as coisas lá?

— Lugar horrível — Brian respondeu diretamente — Não vou nem fingir que é minimamente aceitável porque não é. Passei anos lá tentando reconstruir a minha vida, tentando crescer em um ambiente que não me dava suporte. Sabia que tenho discalculia? Era por isso que tinha tanta dificuldade em matemática.

Mia ergueu uma sobrancelha, refletindo sobre o que ele disse.

— Nossos professores do jardim suspeitavam disso, mas…

— Meus pais não aceitaram e não me levaram ao especialista para um diagnóstico. Quando mudamos de cidade, os professores lá nem sabiam o que era discalculia, achavam que era preguiça e desinteresse. Não foi um bom momento. Só consegui meu diagnóstico depois do Ensino Médio.

— Como você conseguia fazer as provas?

Brian deu um pequeno sorriso, um daqueles que escondem anos de dor bem atrás dos olhos.

— Na maioria das vezes… eu não conseguia. Tirava nota baixa e tentava compensar em outras matérias. Às vezes, colava. Outras, mentia para os meus pais dizendo que os professores estavam me perseguindo. E o pior é que nem era mentira completa… muitos deles realmente não acreditavam em mim.

— E eles nunca pensaram em voltar?

— Claro que não, você os conhece — ele suspirou — depois do colegial fui trabalhar em um escritório, o que também não foi uma boa experiência, mas eu tentava me conformar porque o mundo é assim, não é?

— É o que nos ensinaram.

— É, mas eu nunca me conformei de verdade. Eu estava reprimindo, e quando fui ao médico um tempo atrás, descobri que meu corpo estava quase todo tomado por vidro que não saiu, porque as frustrações não foram expostas.

Mia arregalou os olhos.

— Brian, isso é muito perigoso! Essa condição se chama Acúmulo Emocional Compulsório. É quando o corpo simplesmente para de expelir o vidro porque a mente se convenceu de que não há espaço para a tristeza, para a raiva. Li sobre isso uma vez, mas é tão raro que pensei que fosse quase um mito. A única forma de se livrar… é sentir. De verdade.

— Isso já começou a acontecer, Mia, eu estava chorando lágrimas de vidro quando fui ao médico porque não havia mais espaço para o vidro. Agora eu só sinto raiva. Quando deixo ela sair, os fragmentos saem do meu corpo, mas me machucam também.

Brian olhou para as próprias mãos, que tremiam levemente na areia fria. O nome que Mia pronunciara, Acúmulo Emocional Compulsório, ressoava em seus ouvidos como uma sentença, mas também como uma chave. Não era uma falha moral, não era desleixo como seus professores diziam, era uma condição. Algo que ele não pediu que acontecesse.

— Voltei… por você, Mia —, ele confessou, a voz embargada. — Ou talvez por quem eu era quando estava com você. Depois que saí daqui tudo desmoronou. Eu tentei ser quem eles queriam, me conformar, mas era uma farsa. E o vidro só acumulava. Eu só percebi o quão doente estava quando a primeira lágrima de vidro saiu do meu olho e eu não sentia… nada. Eu estava vazio. Completamente. Aí comecei a chorar de raiva, no meu quarto. Aquilo era tudo que restava de mim, a raiva por ter sido tirado daqui, por ter perdido tudo. E o vidro começou a sair.

Mia se aproximou dele, colocando uma mão leve em seu ombro. O gesto era simples, mas para Brian, que passara anos sem qualquer toque de verdadeira compaixão, pareceu um abraço.

— Sinto muito, Brian. Eu queria ter te procurado, de alguma forma. Mas… eles nos ensinam que seguir em frente é o melhor. Que a vida continua e não devemos olhar para trás.

— Eles nos ensinaram a mentir para nós mesmos —, Brian corrigiu, com amargura. — A mentir sobre o que sentimos, a mentir sobre quem somos. Mas não tem como mentir para o próprio corpo. Um dia ele cobra. Precisei quase morrer para entender isso. E quando entendi, só havia um lugar para onde eu podia vir, para tentar me reencontrar. Para tentar encontrar a felicidade que eu sempre tive aqui, quando éramos crianças.

Mia sorriu tristemente.

— Então, o que faremos agora, Brian? Como vamos tirar todo esse vidro de você? Porque “sentir de verdade” é algo muito abrangente, e você tem doze anos de emoções guardadas.

Brian olhou para o vasto oceano à sua frente, as ondas quebrando ritmicamente na praia escura. Pela primeira vez em muito tempo, sentiu um vislumbre de esperança misturado à dor.

— Eu não sei, Mia. Mas sei que não quero fazer isso sozinho. Eu não posso mais esconder nada. De ninguém. Principalmente de mim mesmo.

Brian não sabia o que fazer, mas sabia que Mia estava ali, e isso era um começo. Aquele momento, sob o manto estrelado da praia que testemunhara a inocência de sua infância, era um portal. Ele não podia mais fugir de si mesmo, nem das emoções que o haviam corroído por dentro. A raiva era um escudo, mas um escudo feito de cacos, e ele precisava de algo mais. Precisava do Brian que ria sem motivo, do Brian que via naqueles anos dourados a fonte inesgotável de sua alegria.

— Talvez…, talvez a gente precise voltar — Brian disse, a voz quase um sussurro. — Não para a cidade, não para a casa. Mas para as coisas que nos faziam felizes. As coisas que a gente fazia quando éramos só a gente, sem todo esse peso de “conformismo”.

Mia o observou, um brilho de compreensão nos olhos.

— Você quer dizer… brincar de novo? Como crianças?

Brian assentiu, um sorriso fraco surgindo em seus lábios. 

— Não para evitar sentir, mas para lembrar como era sentir o bom. Para lembrar como era ser leve antes de tudo virar peso. Eu não sei se eu ainda sei ser feliz de verdade, Mia. Minha felicidade virou uma casca, um mecanismo de defesa. Mas aqui, com você, eu sempre fui real.

A ideia, em sua simplicidade, era radical em um mundo onde a emoção negativa era uma sentença de morte. Buscar a alegria, a espontaneidade, para desatar os nós de tristeza e raiva que o aprisionavam. Eles passariam os próximos dias explorando cada canto daquela cidade litorânea que guardava suas memórias mais preciosas. Voltaram aos fliperamas empoeirados, riram de piadas bobas que os faziam se sentir como antes, construíram castelos de areia que desmoronavam com a maré. Mia contava histórias sobre a infância deles, as brincadeiras que haviam inventado, as promessas sussurradas sob o céu estrelado.

Cada risada sincera de Brian, cada momento de nostalgia que não era amargo, parecia abrir pequenas fissuras no muro de vidro que o cercava. As lágrimas de raiva ainda vinham, mas agora, às vezes, vinham acompanhadas de um estranho alívio, como se cada caco que o machucava também abrisse espaço para algo novo. Ele escrevia nos diários, mas não apenas a raiva. Começou a escrever sobre as memórias, sobre a discalculia que o fazia se sentir um fardo, sobre o abandono dos pais, sobre a saudade que ele havia se recusado a sentir por tanto tempo. Ele revivia em palavras os dias em que o conformismo ainda não havia roubado sua essência.

Mia era a ponte, o fio de Ariadne que o guiaria de volta ao labirinto de sua própria alma. Ela o lembrava do Brian que ele havia sido, e o Brian que ele ainda podia ser. A reconexão com a criança interior não era sobre fugir da dor, mas sobre encontrar a força e a resiliência que ele havia perdido ao longo do caminho. Era sobre lembrar que, mesmo na escuridão, sempre houve uma fonte de luz dentro dele, e essa fonte se manifestava nos ecos de uma infância feliz.

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