Faltavam apenas algumas semanas para o Dia dos Namorados. Julie e Nick precisavam fazer uma música sazonal para esse dia, mas havia um problema: eles odiavam o Dia dos Namorados. Nos últimos anos, parecia que tudo era falso e superficial, e a pior parte era ter que fazer músicas para agradar esse público — pois conteúdo sazonal sempre vende mais, ao menos foi o que seus agentes de marketing disseram.
— Você teve alguma ideia? — Julie perguntou, sentada em frente ao computador tentando buscar inspiração, mas tudo o que via quando abria suas redes sociais eram seus amigos se antecipando nas declarações de amor eterno, que geralmente eram invalidadas em alguns meses.
— Tive. Eles querem uma música romântica, para os namorados e acham que temos química para performar. Mas, nós não vamos fazer isso.
— Nick, precisamos entregar um material para a gravadora em uma semana.
— E nós vamos. Olha só essa letra.
Nick entregou para Julie um caderno com uma letra recém escrita. A tinta ainda estava secando. A garota leu cada pedaço da letra com atenção e seus olhos se arregalavam a cada frase.
— Uau. Se eu tivesse algum romantismo em mim, você teria me drenado por completo.
— Esse é o ponto — Nick sorriu maliciosamente — Uma canção anti-amor, para o Dia dos Namorados.
— Isso tem muito potencial. Muito mesmo. E eu tenho uma ideia ainda melhor.
Julie se levantou e foi até o teclado. Ela começou a tocar uma melodia suave, que lembrava uma música romântica e cantou um pedacinho da letra para encaixar com sua ideia. Depois começou a agitar um pouco para se encaixar no estilo que eles normalmente cantavam. Nick ficou encantado com o resultado.
— Isso foi perfeito. Precisamos gravar isso.
— Vou escrever a partitura e podemos ir ao estúdio. Eu gravo os instrumentos e você grava os vocais, pode ser?
— Com certeza. Vamos fazer isso.
Nick e Julie passaram horas no estúdio preparando a música. Quando estava pronta, eles enviaram para as plataformas com o lançamento programado para o Dia dos Namorados e suas equipes iniciaram a promoção extensiva da música, sem nem revelar o título.
Os dois estavam muito ansiosos para ver a recepção da música. Já estavam na indústria musical havia certo tempo, e não tinham medo de críticas negativas por escreverem uma música que arruinaria a ideia do Dia dos Namorados. Eles sabiam como o mundo era, e essa música não mudaria nada. Ainda assim, se havia uma oportunidade de enviar essa mensagem, eles certamente não perderiam.
***
Assim que a música foi lançada, ela teve um impacto bastante… inesperado.
Acontece, que a música “romântica” de Julie e Nick tinha uma mensagem tão dura contra o romantismo, que aquele foi o primeiro Dia dos Namorados em que não houve um gesto romântico sequer. A letra de Nick, misturada com a música de Julie, realmente conseguiu drenar a energia daquele dia, e as técnicas da composição acabaram fazendo com que seus ouvintes fossem incapazes de esquecer a dureza daquela canção.
— O que acha disso? — Julie perguntou, vendo a repercussão online da música. Nick ergueu uma sobrancelha e riu.
— Quer que eu seja razoável ou brutalmente honesto?
— Só estamos nós dois aqui, então você sabe a resposta.
— Brutalmente honesto? Então, aqui vai: acho que a gente acabou de cometer um pequeno atentado emocional em escala nacional.
Julie começou a rir e balançou a cabeça.
— Como você se sente com isso?
— Não sinto nada, e você?
— Também não. Relacionamentos verdadeiros sobrevivem a uma música.
— É... eu concordo.
***
Quando o Dia dos Namorados e a hype da música passou, ninguém mais estava falando da música ou da dureza da mensagem. Ao menos agora os dois tinham uma estratégia sólida para sempre que esse dia chegasse.
Em uma noite, os dois foram juntos para um evento de música e os fotógrafos tiravam muitas fotos deles dois.
— Porque eu nunca trago meus óculos de sol? — Nick resmungou enquanto passava o braço ao redor de Julie para algumas fotos.
— Eu sempre te aviso, mas você não me escuta. — Ela riu e arrumou os cachos do cabelo enquanto eles posavam para as fotos. Depois de alguns minutos, ela percebeu que ele estava um pouco desconfortável com alguma coisa.
— O que foi?
— Bebi muito refrigerante antes de vir para cá, tô apertado! — ele sussurrou no ouvido dela para que ninguém visse seus lábios se mexendo.
— Aí, Nick, é sempre assim! — ela resmungou.
— Vai, é só um minutinho! — ele pediu, enquanto os flashes ainda captavam suas imagens.
— Tá bom, vai lá.
Nick foi ao banheiro o mais rápido possível e voltou para o lado de Julie antes do evento começar. Não foi nada diferente do que eles estavam acostumados, mas nunca podiam rejeitar esses convites.
Assim que chegaram em casa, Julie pegou o celular e viu suas redes sociais travando de likes e comentários… sobre as fotos tiradas no evento.
— Aí caramba… Nick, vem aqui!
Nick, ainda meio aéreo depois de todo o evento, se aproximou de Julie, curioso com a exclamação dela. Ele espiou por cima do ombro da garota para a tela do celular e arregalou os olhos.
A legenda de uma das fotos, postada por um grande site de celebridades, estampava em letras garrafais: “FLAGRADOS! Seria esse o novo casal sensação da música?”. Abaixo, uma enxurrada de comentários fervilhava.
“Meu Deus, eles combinam muito!”
“Sempre shippei esses dois!”
“Depois daquela música anti-amor, quem diria?”
“Olha o jeito que ele abraça ela, gente! Que fofos!”
“A letra da música deles era irônica, né? Porque aqui tá puro romance!”
Julie e Nick se entreolharam, incrédulos. A música que eles criaram para escancarar a falsidade do Dia dos Namorados, a mesma canção que drenou qualquer resquício de romantismo da data, estava agora sendo usada como “prova” de um relacionamento amoroso entre eles.
— Isso… isso não pode ser sério — Nick murmurou, passando a mão pelos cabelos.
— Parece que o universo tem um senso de humor bem peculiar — Julie respondeu, com uma risada nervosa escapando de seus lábios. — A gente tentou afastar as pessoas do romance e, no fim, criamos uma fanfic gigante sobre nós dois.
— Mas… as entrevistas? As nossas declarações sobre a música? Todo mundo sabe que a gente não tem nada! — Nick argumentou, um tom de desespero começando a surgir em sua voz.
— Aparentemente, não importa — Julie suspirou, rolando a tela do celular. — As pessoas querem acreditar no que querem. E agora, a narrativa de que a música era uma declaração de amor disfarçada está ganhando força. Olha só esse comentário: “Eles fingiram odiar o Dia dos Namorados para nos surpreender com esse amor todo! Gênios!”.
Nick deixou-se cair no sofá, perplexo. Eles fizeram o oposto do que a indústria esperava, e de alguma forma, isso tinha se transformado em um conto romântico.
— E agora? O que a gente faz? — ele perguntou, olhando para Julie com uma expressão de completa confusão.
Julie pensou por um momento, tamborilando os dedos no celular. Uma faísca de ideia brilhou em seus olhos.
— Bem… temos duas opções. Ou desmentimos tudo e arriscamos parecer amargos e antiéticos, já que a música “vendeu” essa ideia… Ou…
Ela fez uma pausa, um sorriso travesso começando a surgir em seus lábios.
— Ou a gente joga o jogo.
Nick semicerrou os olhos.
— Ah, entendi… quer que a gente jogue o jogo do fake dating?
— Seria interessante.
— Mas e quando a gente “terminasse”? Não ia ficar estranho a dupla continuar assim?
— Bom ponto — Julie considerou, pensativa. — Mas pense bem, Nick. A gente já tem uma música que teoricamente “prova” nosso amor. Podemos surfar nessa onda por um tempo, dar algumas entrevistas “fofas”, alimentar um pouco essa fantasia do público. Depois, podemos lançar uma nova música, talvez até mais ácida que a primeira, falando sobre como relacionamentos na indústria são efêmeros e como a pressão pública pode ser sufocante. Aí, “naturalmente”, nosso “romance” chegaria ao fim, servindo como inspiração para essa nova fase da nossa música. Seria metalinguístico!
Nick coçou o queixo, ainda hesitante.
— Metalinguístico e incrivelmente arriscado. As pessoas podem se sentir enganadas.
— E não se sentiram enganadas com a enxurrada de declarações vazias no Dia dos Namorados? — Julie rebateu, um brilho desafiador nos olhos. — A gente só estaria dando ao público o que ele aparentemente quer: uma história de amor, mesmo que fabricada. E, no final, ainda teríamos material para mais músicas. Pensa bem, Nick. Conteúdo infinito!
Um sorriso lento começou a surgir nos lábios de Nick. Ele não podia negar que a ideia de Julie era, no mínimo, genial em sua ousadia. Além disso, havia um certo prazer em subverter as expectativas de uma maneira tão elaborada.
— Conteúdo infinito… — ele repetiu, saboreando a ideia. — E a gente ainda ganha uns bons cliques e streams nesse meio tempo. Ok, Julie. Eu topo jogar o jogo do casal fake. Mas com algumas regras.
— Regras? Que tipo de regras? — Julie perguntou, curiosa.
— Primeiro: nada de demonstrações públicas de afeto exageradas. No máximo, uns abraços e sorrisos para as câmeras. Segundo: combinamos exatamente o que vamos falar nas entrevistas para não cair em contradição. E terceiro… — Nick hesitou por um instante, um leve rubor nas bochechas — … terceiro, mantemos isso estritamente profissional. Sem “acidentes” românticos fora das câmeras.
Julie riu, achando a preocupação de Nick adorável. — Combinado. Sem acidentes românticos. Afinal, nosso objetivo é zombar do romance, não cair nele, certo?
— Exatamente — Nick confirmou, um tom de alívio em sua voz. — Então, por onde começamos a alimentar essa farsa?
— Pelo básico — Julie respondeu, pegando o celular novamente. — Vamos curtir e comentar as fotos um do outro com emojis sugestivos. Depois, podemos postar um story “coincidindo” em algum lugar, tipo um café famoso da cidade. Nada muito óbvio, só o suficiente para atiçar a curiosidade dos nossos fãs. E amanhã, agendamos uma entrevista conjunta. Precisamos ter nossa narrativa bem alinhada.
Os dois passaram o resto da noite planejando cada detalhe da sua encenação, desde os olhares “apaixonados” até as respostas “enigmáticas” para as futuras entrevistas. Uma nova música estava começando a ser escrita, não mais sobre o ódio ao Dia dos Namorados, mas sobre a ironia de se tornar um casal sob os holofotes, mesmo que a realidade fosse completamente diferente. A dupla, que antes queria destruir a aura romântica da indústria, agora se via no centro de uma história de amor inventada, pronta para render frutos inesperados. O universo, de fato, tinha um senso de humor peculiar, e Julie e Nick estavam prestes a se tornar os protagonistas da sua mais nova piada.
***
O tiro saiu pela culatra.
O relacionamento falso deles foi uma ótima jogada de marketing, mas acabou provando que as pessoas realmente têm mais interesse em quem está comprometido do que em quem está solteiro. E isso foi uma maneira péssima de Nick descobrir seus sentimentos pela parceira de música.
Um cantor famoso na indústria estava conversando muito com Julie nas últimas semanas, e Nick estava se sentindo incomodado. Mas ele nem devia se sentir assim, pois eles não tinham nada, nunca tiveram. Ainda assim…
— O Henry quer fazer um feat com a gente! — Julie disse, mostrando a mensagem de texto para Nick.
— Com a gente ou com você? — perguntou secamente.
— Com a gente, Nick. Até porque eu nem canto.
— Ele com certeza te convenceria. — Nick resmungou se levantando e indo até a varanda. Julie largou o celular no sofá e o seguiu.
— Qual é o seu problema?! Sempre que falo dele você fica desse jeito, Nick!
— Não tem problema nenhum.
— Claro que tem, ou então você não estaria assim.
— O Henry está interessado em você, não na parceria!
Julie revirou os olhos.
— Certo, mas eu não estou interessada nele e consigo lidar com a situação, então por que você está tão incomodado?
— Porque eu gosto de você, droga!
O silêncio pairou entre os dois, denso e carregado de uma eletricidade inesperada. A brisa da noite balançava levemente as plantas na varanda, mas nenhum dos dois parecia notar. Os olhos de Julie estavam arregalados, surpresos pela confissão repentina e nada ensaiada de Nick.
— Você… gosta de mim? — ela perguntou, a voz um fio hesitante.
Nick desviou o olhar, sentindo o rubor em suas bochechas se intensificar. Ele olhou para a cidade iluminada lá embaixo, qualquer coisa para não encarar a reação de Julie.
— É... meio que… sim — ele murmurou, a sinceridade em sua voz era inegável. — Faz um tempo já, na verdade. Mas com toda essa coisa da música, do Dia dos Namorados, do nosso “relacionamento” falso… parecia uma péssima hora para… você sabe.
Julie deu um passo à frente, aproximando-se de Nick. Ela ergueu a mão e tocou levemente seu braço, fazendo-o se virar para encará-la.
— Nick… eu… eu não sabia. Quer dizer, a gente sempre se deu bem, mas… romanticamente?
Um sorriso nervoso surgiu nos lábios de Nick. — Eu sei, parece meio ridículo, não é? A gente passando esse tempo todo zoando o amor e... bem, aqui estamos.
O olhar de Julie se suavizou. Ela sempre admirou a inteligência e o humor ácido de Nick, a forma como ele conseguia transformar qualquer situação em algo engraçado. Mas nunca pensou nele dessa maneira. A ideia era… surpreendente, para dizer o mínimo.
— E o Henry? — Nick perguntou, a insegurança voltando a sua voz.
— O Henry é... um cara legal. Talentoso. Mas… — Julie hesitou por um instante, ponderando suas palavras. — Mas ele não é você, Nick.
Um brilho de esperança acendeu nos olhos de Nick. Ele deu um passo à frente, encurtando a distância entre eles.
— Julie… sei que tudo isso é meio repentino, e talvez eu tenha estragado tudo com essa confissão idiota…
— Você não estragou nada, Nick — Julie o interrompeu suavemente. Ela elevou as mãos e as colocou em seus ombros, encarando-o com uma intensidade que ele nunca viu antes. — A verdade é que… talvez eu também não tenha sido completamente honesta comigo mesma sobre o que sinto por você.
O coração de Nick acelerou. Ele levou as mãos aos rostos de Julie, seus polegares acariciando suavemente suas bochechas.
— Você… está dizendo que…?
Julie sorriu, um sorriso genuíno que iluminou seu rosto. — Estou dizendo que talvez essa farsa toda tenha nos mostrado algo que a gente não queria admitir. Que talvez, no meio de tanta ironia e sarcasmo, a gente tenha construído algo real sem nem perceber.
O som distante de uma buzina de carro na rua parecia distante, abafado pela intensidade do momento entre eles. Nick se inclinou lentamente, seus olhos fixos nos de Julie, buscando qualquer sinal de hesitação. Não encontrou nada além de uma expectativa silenciosa.
Seus lábios se encontraram em um toque suave, hesitante a princípio, mas que rapidamente se aprofundou em um beijo carregado de emoção e uma descoberta inesperada. Era um beijo diferente de qualquer “performance” que eles fizeram para as câmeras, um beijo que falava de uma conexão genuína que floresceu ironicamente em meio à aversão ao romantismo.
Quando se separaram, suas testas se tocaram. Um sorriso tímido adornava os lábios de ambos.
— Então… e o Henry? — Nick perguntou novamente, um tom divertido em sua voz.
Julie riu baixinho. — Acho que o feat vai ter que esperar um pouco. Temos assuntos mais importantes para discutir agora.
E enquanto brisa noturna os envolvia, Julie e Nick perceberam que, às vezes, as reviravoltas mais inesperadas da vida podem nos levar exatamente onde deveríamos estar. A música que zombava do amor talvez tivesse, ironicamente, composto a melodia de um novo começo para eles.
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