Escrevo "errado" de propósito


Percebi uma coisa engraçada analisando a minha escrita ultimamente, e comparando com as regras que permeiam o mercado independente. Acho que já quebrei tantas, que se existisse uma prisão eu estaria lá.

Só para contextualizar, aqui estão algumas das regras:

I. Regras de Estrutura e Enredo

1. A Regra da Estrutura de Três Atos Imutável: Todo livro deve ter um início claro (Ato I), clímax no meio (Ato II) e resolução no final (Ato III), seguindo a curva dramática esperada.

2. A Regra do Protagonista Único e Central: A história precisa ter um único herói ou protagonista com um arco de desenvolvimento bem definido e foco principal.

3. A Regra da Abertura Impactante (In Media Res): O primeiro capítulo/cena deve começar in media res (no meio da ação ou do conflito) para prender o leitor imediatamente.

4. A Regra do 'Show, Don't Tell' Absoluto: Nunca diga algo ao leitor, sempre mostre através da ação, do diálogo e dos detalhes sensoriais.

II. Regras de Personagem e Voz

5. A Regra do Arco de Redenção/Transformação: O protagonista deve ter uma clara evolução, aprendendo uma lição ou superando um defeito (arco positivo).

6. A Regra do Narrador Confiável: O narrador (especialmente em primeira pessoa) deve ser, em essência, verdadeiro e fiel aos fatos.

7. A Regra da Voz Consistente e Formal: O estilo, vocabulário e tom do narrador ou da obra devem ser totalmente consistentes e gramaticalmente corretos do início ao fim.

III. Regras de Gênero e Mercado

8. A Regra do Foco no Gênero Único: Para marketing e para atrair leitores de nicho, você deve focar em apenas um gênero (ex: só Fantasia, só Romance Dark, só Thriller).

9. A Regra do Livro Perfeito para Publicação: O primeiro rascunho deve ser polido e revisado por anos, com múltiplos editores, para ser “perfeito” antes de ser lançado.

10. A Regra do Livro como Unidade (Contra Séries): Cada livro deve funcionar sozinho (ser stand-alone), e você deve ter cuidado ao se prender a séries longas.

Claro que essas são apenas algumas das regras, mas só para começar, eu já iniciei a minha carreira em 2023 quebrando a regra de foco de gênero: no mesmo ano publiquei uma fantasia e uma ficção científica. Eu frequentemente quebro a regra do Show don't tell, algo que escritores experientes dão destaque demais, mas muitas vezes eu conto, ao invés de mostrar, e isso faz parte do meu estilo narrativo, que vou explicar agora.

Eu não quero te dar tempo para andar e pensar. Eu quero te empurrar e ver você caindo em cima do caos.

Um pouco sádico da minha parte? Talvez, mas eis a explicação:

Quando lemos um livro que nos insere e nos prepara psicologicamente dentro da narrativa, nós temos a oportunidade de nos preparar para imprevistos (ou não, se formos desatentos e o plot twist nos pegar). Isso faz com que muitos leitores adivinhem o final da narrativa e se sintam orgulhosos por isso.

Na minha narrativa, no entanto, eu não quero te dar a oportunidade de sentir o processo. Eu quero te surpreender e obrigar a sua mente a se adaptar rápido a uma situação que você não viu chegando porque seu cérebro está habituado a certos padrões literários. Acorda. Eu estou te desafiando.

E é exatamente por isso que, às vezes, eu simplesmente conto. Eu não tenho paciência para descrever uma lágrima descendo em câmera lenta quando o mundo está literalmente pegando fogo ao redor do personagem. Eu não quero te dar a chance de respirar fundo e pensar: “Nossa, isso foi bonito.” Não é bonito. É desconfortável. É intenso. É uma rasteira.

Mas às vezes eu me dou liberdade de aplicar algumas dessas regras. Às vezes descrevo muito as emoções, mas isso é quando o contexto cabe, quando o personagem está introspectivo ou sentindo algo muito forte. Quando escrevo em primeira pessoa, gosto de escrever através de cartas, ou de fingir que o personagem está escrevendo para alguém. Quando escrevo em terceira pessoa (narrador observador ou onisciente) escrevo como alguém que viu de fora. Agora me diga: o narrador observador vai narrar a respiração descompassada do personagem principal? Não, porque ele não consegue ver. Mas o narrador onisciente consegue, então por que não faz? Porque é irrelevante. A menos que seja relevante, aí ele narra. Entende o que quero dizer?

Aliás, esse é outro ponto que sempre me incomodou: essa obsessão com a “coerência perfeita”. Não me entenda mal, eu amo uma boa história bem amarrada. Mas às vezes, a vida não é coerente. A realidade é um caos — então por que a ficção precisa seguir uma lógica de ferro, como se o leitor fosse incapaz de lidar com o inesperado?

Eu gosto de deixar perguntas sem resposta. Gosto de plantar cenas que parecem soltas e confiar que o leitor mais atento vai amarrar os pontos sozinho — ou não. Às vezes nem eu quero amarrar tudo. Porque viver com dúvida também é parte da experiência humana. Porque a vida real nem sempre tem fechamento, nem sempre tem redenção, nem sempre tem explicação.

É por isso que eu também quebro a tal Regra do Arco de Redenção. Às vezes, o personagem não melhora. Às vezes, ele piora. Às vezes, ele morre sendo a pior versão de si mesmo. E isso, para mim, não é um fracasso narrativo — é uma escolha. Eu não escrevo para te dar conforto. Eu escrevo para te sacudir. Para te provocar. Para te obrigar a sair da leitura com mais perguntas do que respostas.

E isso me leva à questão do narrador confiável. Sinceramente? Eu não confio em ninguém, nem nos meus próprios personagens. Todos têm uma agenda, todos têm buracos nas memórias, todos filtram a realidade. Por que o narrador deveria ser isento? Não somos isentos nem quando contamos nossa própria história. Então, por que o narrador deveria ser uma entidade neutra, perfeita e invisível?

Não. Às vezes, ele mente. Às vezes, ele exagera. Às vezes, ele omite porque está tentando se proteger. Ou proteger você.

Talvez eu esteja escrevendo errado. Talvez eu esteja escrevendo certo demais para o momento errado. Mas uma coisa eu sei: estou escrevendo como eu quero. E mais do que isso — estou escrevendo como eu sinto que precisa ser.

Se isso me torna uma criminosa literária… então que seja. Aceito minha sentença. Mas duvido que você termine um dos meus livros da mesma forma que começou.

Porque no fim das contas, eu não quero que você leia só com os olhos.

Quero que leia com os nervos.

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