A vingança mais SATISFATÓRIA da literatura: minha resenha caótica e honesta sobre O Conde de Monte Cristo


Eu não tenho nem PALAVRAS. É sério. Vai ser o texto mais difícil de escrever, mas vamos lá: precisamos falar sobre O CONDE DE MONTE CRISTO

Em primeiro lugar, isso sou eu todos os dias:
Mas eu não estou falando do(s) filme(s), e sim do livro do Alexandre Dumas. Essa resenha vai ser muito desconexa porque o livro foi enorme e eu senti MUITAS coisas de uma vez só.

Foram 117 capítulos de pura emoção que transformaram esse clássico no meu livro favorito da vida, mas vamos agora falar sobre a história em si.

Tudo começa com o jovem Edmond Dantès, de 19 anos que é promovido a capitão do navio Pharaon, após seu antecessor, o capitão Leclère morrer.

Na época em que a história se passa, Napoleão Bonaparte havia sido exilado da França, e qualquer aliado dele podia ser denunciado e preso. O Capitão Leclère era bonapartista e durante a viagem fez uma parada na Ilha de Elba (onde Napoleão estava) e deu ordens a Edmond para entregar uma correspondência. Edmond obedeceu o capitão, sem saber o que estava entregando.

Durante a viagem, Leclère adoeceu. Antes de morrer, quando passou o comando do Pharaon para o Edmond, Leclère pediu que ele entregasse uma carta a Noirtier de Villefort (guardem esse sobrenome) quando eles voltassem para Marselha, já que o moribundo não poderia fazer isso né... 

Edmond, como o bom rapaz que era, de novo, só obedeceu. Ele nunca soube o conteúdo da carta... E também nunca chegou a entregá-la ao destinatário.

Isso porque, também estava a bordo do Pharaon o Monsieur Danglars. Ele ficou com inveja por Edmond ter sido escolhido como capitão ao invés dele. É aí que tudo começa.

Sabendo da parada na Ilha de Elba, e dessas correspondências, Danglars suspeitava que se tratava de bonapartismo, que era traição contra o rei da França, como eu já disse.

De volta a Marselha, Edmond reencontrou as duas pessoas que mais amava no mundo: sua noiva, Mercedes, e o seu pai. Com a posição de capitão, ele e Mercedes poderiam finalmente se casar e estavam muito felizes.

Nesse cenário de felicidade, Edmond conheceu Fernand Mondego, primo de Mercedes (que era apaixonado por ela e também se contorcia de inveja de Edmond Dantès).

Quando uma boa pessoa como o Edmond tem algozes como Danglars e Mondego, a coisa não tem como terminar bem. Danglars e Fernand então se aliam, e Danglars escreve uma carta anônima denunciando Edmond como um bonapartista para o procurador do rei. No ato de escrever eles são vistos por um homem chamado Caderousse, que chama a atenção deles por isso (mas ele estava bêbado, e também não fez nada para impedir). Danglars então se livra da carta, mas no último minuto, Fernand a recupera e a envia.

Resultado? Edmond é levado preso no dia de seu almoço de noivado (que precedia o dia de seu casamento, pois ele e Mercedes tinham decidido se casar logo).

Edmond, com toda a sua inocência, encontra o procurador do rei e explica que ele não sabia do conteúdo da carta, que ele não era bonapartista e entrega a carta para o procurador (lembra que eu disse que ele nem chegou a entregar a carta ao destinatário? Pois é)

Ele iria ser liberado rapidamente... Até o procurador perguntar quem era o destinatário.

Quando ele soube que a carta era endereçada ao Monsieur Noirtier de Villefort, ele não libertou Edmond.

Por que?

Porque o nome do procurador do rei era Gèrard De Villefort. Ele era filho de Noirtier, e o conteúdo daquela carta, ligado ao seu sobrenome poderia arruinar a sua carreira.

Como Edmond era o único que sabia sobre o destinatário da carta (embora não tivesse associado ao parentesco com o procurador do rei), Villefort concluiu que precisava silenciá-lo e o mandou para a prisão do Castelo d'If.

Um inocente, preso injustamente como um criminoso, por conspirações egoístas de três pessoas. O que você faria no lugar dele?

No Castelo d'If ele lutou para manter sua sanidade. Pedia a Deus que preservasse a sua memória em meio a todo aquele sofrimento.

Eis que, Edmond conhece o abade Faria, seu vizinho de cela. Eu poderia fazer uma resenha inteira SÓ sobre esse personagem, porque ele é muito interessante e de importância crucial na narrativa.

O abade Faria era visto pelos carcereiros como um louco, pois falava de um tesouro escondido e ofereceria a localização em troca de sua liberdade. Ninguém acreditava, naturalmente. Mas, esse velho não estava mentindo, e estava perfeitamente lúcido. Tão lúcido, que sua cela estava CHEIA de invenções para tornar sua estadia (e seu trabalho de escavação) mais “confortável”.

Ele estava escavando a prisão há anos, e de tanto escavar conseguiu criar uma passagem para a cela de Edmond. Nasceu uma amizade a partir disso, e Edmond aprendeu todo tipo de conhecimento com esse senhor. (Edmond era pouco instruído, mas durante todo esse tempo na prisão, ele adquiriu o conhecimento de um príncipe). Foi com a ajuda do abade, que Edmond conseguiu concluir quem foram seus algozes, e o desejo de vingança nasceu aí.

O abade Faria contou para Edmond tudo sobre o tesouro dos Spada. Um tesouro gigantesco que estava escondido e sem herdeiros, e que só o abade sabia a localização. A ideia era que os dois fugissem da prisão e dividissem a riqueza.

Dantès passou 14 anos preso, e o abade acabou morrendo. Foi assim que Edmond descobriu uma forma de fugir. Os carcereiros colocaram o corpo do abade dentro de um saco e largaram na cela para pegarem depois. Edmond aproveitou a brecha, colocou o abade em sua cela e entrou no saco no lugar do velho.

Os carcereiros jogaram o saco no mar, sem saber que essa troca havia sido feita (quando perceberam já era tarde). Eles acreditavam que o prisioneiro 34 (o número de Edmond) estava morto de qualquer forma pois tinha uma bola de ferro amarrada ao saco.

Mas... Edmond rasgou o saco e nadou até uma ilha. Ele estava livre. Tem todo um sub enredo envolvendo outros personagens que Edmond interage mas se eu detalhar tudo eu nunca vou terminar. O que importa é que, Edmond foi atrás desse tesouro, seguindo a localização que o abade havia fornecido.

Ele encontrou o tesouro. Aquela infinidade de ouro, jóias, riquezas... Pertencia a ele.

Com toda essa riqueza, Edmond passou alguns anos construindo uma(s) personas distintas, misteriosas e complexas, conhecendo pessoas e fazendo aliados, até chegar em Paris sob o título de Conde de Monte Cristo. Ele estava sedento de vingança pela injustiça que cometeram contra ele, e pelo que aconteceu depois. Ele descobriu que seu pai morreu de fome, e Mercedes havia se casado com Fernand. Os dois agora tinham o título de Conde e Condessa de Morcerf, e eram pais do visconde Albert de Morcerf.

Em vários momentos, o personagem é comparado ao Lord Ruthven, (o primeiro vampiro da Literatura Inglesa criado por John Polidori), pois esse personagem formou um estereótipo de vampiro estrangeiro que entra em uma sociedade e abala suas estruturas, algo que o Conde estava fazendo. Ele era a sensação de Paris.

A vingança de Edmond foi minuciosamente arquitetada, não dá para explicar todos os pontos dela, mas ele se aproximou de seus inimigos, entrou na vida deles e manipulou tudo ao seu redor. Era incrível ler cada mínima ação executada pelos personagens tendo sido premeditada pelo conde muitos meses antes.

Vale destacar que, a vingança de Edmond tinha uma profundidade interessante. Não era vingança por vingança. Ele era um homem de fé, e acreditava que o que aconteceu a ele havia sido a Providência, e que Deus queria usá-lo para fazer a Sua justiça na terra, contra aqueles que o fizeram mal. Ele acreditava nisso de verdade.

No fim, os três inimigos são completamente destruídos, mas a destruição deles foi extremamente lenta, cheia de detalhes e nuances que justificam o tamanho desse calhamaço. Mas basicamente:

Fernand Mondego se suicidou após perder tudo e ser abandonado por Mercedes e Albert

Villefort enlouqueceu (a história de Villefort é um escândalo ENORME, vale a pena ler)

Danglars — que havia se tornado um Barão — faliu e precisou fugir (mas foi o único que o Conde “perdoou”)

E outros personagens que ficaram contra o conde em certos momentos da narrativa... Não tiveram finais muito agradáveis.

No fim de tudo a justiça foi feita e Edmond não sujou as mãos de sangue em momento nenhum. Isso é algo que as adaptações sempre falham, colocando um duelo de espadas entre ele e Fernand toda vez 🤢

Ah, e a Mercedes, você deve estar pensando? Cara, o Edmond não quis saber dela. Ela reconheceu ele imediatamente quando o viu, mas ele era tão frio e a afastava tanto que já estava bem claro que não havia final para eles dois. Muito tempo havia se passado.

Edmond inclusive, via o casamento de Mercedes com Fernand como uma traição. Mesmo que ela acreditasse que Edmond havia morrido, o que Edmond via era a mulher que jurou amá-lo por toda a vida, ter casado justamente com o homem que os separou. Então, eles até terminam o livro em bons termos, mas afastados. O conde termina o livro com uma mulher chamada Haydée, que era sua protegida e que também tinha uma vingança pessoal contra Fernand (esse homem destruiu a vida de muita gente viu...)

Bom, eu resumi MUITO a história, o que eu disse aqui não é nem 10% da quantidade de drama que tem nesse livro. Quem quer a experiência completa precisa ler, porque infelizmente, nenhuma adaptação conseguiu expressar a complexidade e a dimensão dessa história.

O que me faz lembrar do filme de 2002 com o Jim Caviezel. Tenho memórias afetivas, até porque o Edmond está belíssimo no filme, mas a história... Dá vontade de arrancar meus ouvidos e olhar só para o conde. Já o filme francês de 2024 com Pierre Niney, lembra o livro um pouco mais, mas ainda tem mudanças que me incomodam muito (ahem, Andrea Cavalcanti, Haydée apaixonada por Albert 🤢). 

Tem outras adaptações que ainda quero assistir, mas um livro dessa magnitude, dificilmente conseguirá ser adaptado de forma 100% satisfatória. Por isso eu sempre recomendo: leia o original, não se aliene com as adaptações contemporâneas, porque muitas vezes, o tempo quer mudar o passado, mas o passado não pode ser morto — ele sempre volta, seja na forma de justiça, seja na forma de vingança.

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