Frankenstein (2025) pode ter sido morno para a maioria — mas a nossa Criatura precisava disso.
Quando a adaptação de Frankenstein, dirigida por Guillermo Del Toro foi anunciada, eu confesso que fiquei apavorada. Eu não tenho boas expectativas em relação a adaptações de livros clássicos. É a minha obsessão, eu estudo Literatura Inglesa e só falo disso nas minhas horas vagas. E a maior parte das adaptações, principalmente quando diz respeito a monstros, me irrita profundamente.
A dualidade de Jekyll e Hyde nunca é abordada de forma justa, Jekyll sempre vira um cientista louco e Hyde um monstro grotesco e ignorante. Drácula nunca é abordado como o predador cruel e nojento que ele é, mas como uma figura erótica e vítima de um romance trágico. Dorian Gray parece um adolescente "edgy" em depressão só vivendo os prazeres da vida, e não um rapaz maligno, controlador e repulsivo. E por fim, a Criatura de Frankenstein sempre é adaptado como um monstro irracional que parece um zumbi quadrado.
Hollywood não sabe adaptar monstros clássicos. Eles tem medo, porque esses monstros carregavam mensagens pesadas demais, que, convenhamos, o público hoje não tem estômago para aguentar.
Por isso, a adaptação de Guillermo Del Toro foi um RESPIRO, apesar das liberdades criativas tomadas pelo diretor.
Eu não vou ficar comparando ao livro, quero falar do filme e de como a Criatura — interpretada por Jacob Elordi — foi abordada em contraste com o que as outras adaptações fizeram.
Mas, para dar contexto, no livro, A Criatura foi feita a partir de partes de diferentes cadáveres, as partes mais perfeitas que Victor Frankenstein poderia achar. Victor trabalhou sozinho nessa criação, e passou pelo horror de vê-lo vivo completamente sozinho. No filme, foi basicamente assim também. Tem muito cadáver no filme, muito sangue, mas está lá: Victor criando seu "Adão" sem um assistente corcunda ao seu lado. Esse é o primeiro ponto que as outras adaptações erram e essa aqui não errou: o assistente corcunda não existe na obra de Mary Shelley, ele foi algo que surgiu com as adaptações teatrais.
A frase "Ele está vivo!" também não aparece no filme. O que acontece é que Victor se frustra quando a Criatura não acorda, e vai dormir, apenas para acordar com um bebezão de dois metros de altura na frente da sua cama.
Eu gostei que Victor, nesse filme, não abandona a criatura assim que a vê. Ele ainda tenta interagir e fica no laboratório, mas a rejeição já está visível nos olhos e nas reações do personagem interpretado por Oscar Isaac. A maior frustração dele? Sua Criatura não é inteligente. Ele não sabe falar nada além de "Victor". Mas, ao mesmo tempo, Victor não ensina nada a ele.
A Criatura sente dor, sofre, e grita quando Victor o agride verbalmente e fisicamente. Me lembrou, realmente, um bebê. E o sofrimento da Criatura não cessa em momento nenhum. Ele foi trazido a vida, e largado para morrer em um incêndio!
Por que o diretor tomou essa liberdade criativa? É simples. O monstro precisava despertar empatia, porque é exatamente isso que acontece no livro.
O monstro tem voz. Ele sofreu muito. E Del Toro escolheu dar destaque a isso, ao invés de criar um zumbi caricato de Halloween. Foi uma escolha inteligente... Mas foi unilateral.
A complexidade da obra está na ambiguidade. Victor é detestável, mas ele também sofre. A Criatura é uma vítima, mas ele comete assassinatos a sangue frio para punir Victor. Não quero dizer que foi uma péssima escolha (não foi! Fiz algo parecido em Frankie também), mas é importante fazer essa distinção. A história não é tão preta e branca assim.
Apesar das mudanças do filme, que não foram só essas mencionadas, sinto que a mensagem central ainda estava presente: a ética científica e os limites da ambição humana. Foi isso que fez Mary Shelley escrever Frankenstein em primeiro lugar. Foi isso que me motivou a escrever Frankie.
A mensagem ainda está lá, mas abordada de forma diferente.
Nem de longe o filme entra na lista de "filmes bons e péssimas adaptações". Uma boa adaptação não precisa ser idêntica. Ela precisa ser fiel, e precisa, em primeiro lugar, respeitar o que o autor escreveu — não o subtexto de uma interpretação contemporânea, mas o texto em si, que o tempo preservou.
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