Não leia clássicos com cabeça de TikTok
Muitas coisas me irritam no mundo, e essa é mais uma delas: pessoas problematizando clássicos.
Se parassem por um minuto de olhar para os próprios pés e refletissem que o mundo nem sempre foi politizado como eles obrigam o mundo inteiro a ser agora (porque se você não cumprir as expectativas sociais de fulaninho ele vai te cancelar… cara, vai fazer uma pós-graduação), o mundo seria bem menos irritante.
Vamos falar de alguns clássicos que eu já vi alguns comentários ridículos vindo de pessoas que leram o livro com olhos do século 21, sem pensar que os autores sequer pensavam em um século 21 lendo suas obras.
1. Orgulho e Preconceito (Jane Austen)
Gente, respira… O livro foi escrito por uma mulher que claramente ironizava o “mercado” de casamentos da Inglaterra. Jane Austen usou uma linguagem irônica para retratar a época que ela viveu. Ela era uma mulher a frente do seu tempo, mas não tinha a cabeça do século 21 não. Ela não estava reforçando estereótipo nenhum. O estereótipo é coisa de hoje. Naquela época, aquilo era o normal. Ela estava retratando o normal dela. É uma questão de interpretação de texto (que aparentemente tá faltando nos dias de hoje…)
Agora vamos falar sobre o Darcy. O Darcy tinha privilégios sim. Ele era rico. Isso era normal, assim como também era normal que pessoas como ele se casassem com pessoas da mesma classe social dele, e não pessoas abaixo (como era o caso da Lizzie). Apesar de isso ser normal, o livro, como diz o próprio título, mostra que ambos protagonistas tinham problemas sérios de caráter. Darcy era arrogante e orgulhoso por causa de seu status social, e Lizzie tinha preconceitos a respeito dele devido à primeira impressão que teve.
A Jane Austen até se adiantou bastante aqui, porque a Lizzie não tem nada de “I can fix him”. Quem se conserta para merecer o afeto da Lizzie, é o Darcy. Ele abre mão da arrogância, que faz com que Lizzie também abaixe as armas. É, hoje as pessoas provavelmente vão achar que ele “fez o mínimo”, mas pelo amor de Deus, essa obra é do SÉCULO 19. Parem de ler achando que a Jane Austen estava pensando em vocês.
2. Razão e Sensibilidade (Jane Austen)
Eu não sei o que acontece com algumas pessoas que acham que toda obra clássica escrita por uma mulher tem obrigação de ser um manifesto feminista pós-2015. Aí aparecem uns iluminados dizendo que Razão e Sensibilidade “reforça a dependência da mulher no casamento”, que “as Dashwood só sofrem por causa de homens”, que “Austen naturaliza o patriarcado”, como se Jane Austen tivesse a menor obrigação de prever o discurso acadêmico de gênero do século 21.
Gente, por favor… a mulher estava escrevendo no começo do século 19. Ela não ia magicamente transformar a Elinor numa executiva independente que resolve tudo com um cartão de crédito Black e terapia em dia. O mundo não funcionava assim. Austen retrata a realidade de sua época, com a ironia fina que ela dominava.
E outra: já vi comentários dizendo que “o Willoughby é abusivo” (sim, e a água molha — obrigada pela observação profunda) e que “a obra responsabiliza as mulheres pelas próprias emoções”. Isso se chama sociedade vitoriana. Austen não inventou. Ela ridicularizou. Se isso não fica claro, o problema não é com o livro, é com o leitor. A mensagem principal da obra é sobre o equilíbrio entre razão e sensibilidade através das irmãs Dashwood. Elinor era centrada e racional, Marianne era impulsiva e apaixonada (e irritante). As duas sofreram porque não souberam dosar essas características, mas no fim tiveram finais felizes, e perfeitamente dentro do que Jane Austen queria abordar. Novamente, ela viveu naquela época e o final que as irmãs tiveram foi justamente o final que Jane desejava para ela e para a irmã, mas nunca pôde ter (sim, a Jane queria ter se casado, para a surpresa de muitos)
3. Drácula (Bram Stoker)
Agora vamos ao cúmulo: Drácula. Eu já li gente dizendo que o romance é “xenofóbico”, porque o vilão é um estrangeiro ameaçando a integridade da Inglaterra. Meu amor, isso é um romance gótico do século 19. Esse gênero sobrevive literalmente de medos exagerados, monstros, degeneração, e tudo que hoje chamariam de “problemático”. Se o Drácula fosse um consultor de RH de Londres tentando pagar aluguel, não tinha história. O Drácula é um monstro, um predador. Ninguém dá voz a predadores (e é justamente por isso que ele não narra).
E também aparece aquela turma indignada com a “pureza feminina” da Mina, como se Stoker estivesse escrevendo um guia moral. Não estava. Ele estava escrevendo sobre o choque entre valores tradicionais e ameaças sobrenaturais. Mas claro, o leitor moderno acha que tudo é metáfora para opressão de gênero porque só consegue interpretar narrativas com a cabeça de thread no Twitter e nem para e pensa em como Stoker escreveu uma protagonista feminina brilhante. Porque, sim, Mina é uma protagonista ativa da obra. A proteção que os protagonistas homens tem diante dela, era (novamente) uma característica daquela época, que NÃO a impediu de participar (e de ser extremamente necessária) na narrativa.
Pode ficar surpreso: Bram Stoker sabia escrever personagens mulheres.
Então, se você está lendo Drácula como comentário político literal, sinto informar: você perdeu a parte divertida (e a parte inteligente).
4. O Fantasma da Ópera (Gaston Leroux)
Esse aqui rende. O Fantasma da Ópera é praticamente o paraíso dos “olhares problematizadores”. Já vi gente dizendo que o Fantasma é “um stalker abusivo” (uau, parabéns), que o livro “romantiza sequestro”, que “Christine é objetificada”. Meu bem… o ponto do livro É esse. O Fantasma é assustador, obcecado, destrutivo. Ele não é para ser amado. É para ser temido (e é justamente isso que faz muitos fãs de literatura amá-lo!). A obra não está pedindo sua aprovação moral, ela está pedindo que você entenda o gótico melodramático do começo do século 20.
Se a pessoa entra no texto querendo achar uma fanfic de romance saudável com comunicação não-violenta, vai obviamente se frustrar. Leroux nunca prometeu isso. Christine é ingênua e manipulada porque é assim que tragédia funciona. E o Fantasma não é “cancelável”. Ele é literalmente um monstro literário que você odeia amar (porque ele é um personagem MUITO “gostável” para quem gosta de literatura complexa). Romantizar o Fantasma é coisa que alguns fãs fazem, não o texto. Leroux nunca pediu isso. É puro gótico melodramático, não fanfic de conforto emocional.
5. O Conde de Monte Cristo (Alexandre Dumas)
Aqui o festival de interpretações tortas chega ao auge. Já vi gente afirmando que “Edmond Dantès é mesquinho”, que “a vingança dele é moralmente injustificável já que atingiu inocentes”, que “o livro trata culturas orientais de forma mal representada”. Sim, mas adivinha? O livro não se passa hoje. Não é sobre “ser mesquinho”. É sobre justiça poética, destino, abuso de poder e o que o rancor pode fazer com uma pessoa.
E sobre representações culturais: é claro que um autor do século 19 não vai retratar outras culturas com o filtro ideológico de 2025. Dumas nem estava tentando soar antropologicamente exato — ele estava escrevendo uma aventura gigantesca, dramática, exagerada. É esse exagero que faz O Conde de Monte Cristo ser incrível até hoje. Você não lê para fazer análise de políticas públicas; você lê porque é épico.
O pessoal que lê o Dantès e diz “ah, mas vingança não resolve nada” parece que nunca entendeu o gênero. Não é um panfleto de boa conduta. É literatura. É catarse. É ficção. É para ser grandioso. Dantès chega a ser lunático, maluco mesmo. Ele usa perucas e finge ser três pessoas diferentes. O “molho” da obra é isso!
O fato de ele não terminar o livro com Mercedes (seu amor do passado) também é algo que criticam, porque ele termina o livro com Haydée, uma mulher mais nova que era sua protegida. Os comentários que mais vejo são sobre “desquilíbrio de poder” e “diferença de idade”… Jesus Cristo, vamos lá.
Haydée fez uma escolha, porque se dependesse do Conde, ele ficaria sozinho e se punindo por toda a vida. Ela o amava. Ela o escolheu (e não foi só no final!). Ela sofreu com a possibilidade da morte dele. Haydée o amava, e representou uma segunda chance para ambos, pois ela também foi atrás de vingança na história. Ela era mais nova? Sim. Mas ela era adulta e ninguém arrancava os cabelos por causa de 20 anos de diferença como se faz hoje não. No século 19 era normal.
Ainda tem esse argumento de desequilíbrio de poder que quem faz parece que leu com os olhos fechados. Haydée não era escrava de Edmond. Ela foi comprada por ele? Foi. Mas ele não a possuía e deixava isso muito claro. Ele a comprou para libertá-la e por causa da vingança contra Fernand. Ela era a única na mansão que não tinha função servil nenhuma. O livro deixa isso explícito. Ele permitiu que ela o deixasse várias vezes, e de novo, ela escolheu ficar. O que mais vocês querem???
A relação deles não está quebrando nenhuma regra da época; quem está tentando julgá-la com critério de 2025 é que precisa respirar fundo.
Bom, claro que tem muitos outros clássicos que eu poderia falar, mas vou ficar com esses por hoje. São 5 leituras que recomendo muito. Mas só se você for ler com o olhar correto, e sempre se lembrando: o livro não foi escrito para você.
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