Éramos Jekyll e agora somos Hyde


E vamos ao primeiro texto de 2026!

Você não leu o título errado. Neste texto, quero falar especificamente sobre O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson, e sobre como deixamos de ser Jekyll apenas para nos tornarmos Hyde em um mundo em que ambos podem nos matar.

Para contextualizar, Hyde era uma fragmentação do Dr. Jekyll. Ele era, quase literalmente, um pedaço de consciência. O Dr. Jekyll era um médico de reputação intocável na Inglaterra, mas era consumido por desejos repulsivos que não podia externalizar. Por causa disso, criou uma poção que separasse seu lado moralmente correto de seu lado mais primitivo, e assim surgiu o Sr. Hyde.

Quando Jekyll tomava essa poção, transformava-se em Hyde, que visivelmente era uma criatura fragmentada e estranha, já que esse lado primitivo de Jekyll não havia sido desenvolvido. Jekyll podia agir como quisesse na forma de Hyde, pois sua reputação como Jekyll permaneceria intacta e ele acreditava estar no controle.

Até que, após Jekyll se transformar em Hyde tantas vezes, Hyde começou a se fortalecer e a tomar a consciência de Jekyll sem que ele precisasse da poção. No fim, Jekyll foi completamente destruído por Hyde.

Quando falamos de Jekyll e Hyde, estamos falando de dois lados do mesmo homem. Resumi a história aqui porque estava refletindo sobre essa questão — algo que a psicanálise já explicou no passado — que se trata do id e do superego.

Vou direto ao ponto: as pessoas deixaram de ser neuróticas e decidiram se tornar monstros.

E vou chamar de monstros, sim, e isso vai fazer sentido já já.

Na era vitoriana (época em que O Médico e o Monstro foi escrito), as pessoas precisavam ter uma moral perfeita, e essa exigência por perfeição beirava a hipocrisia e, em alguns casos, até o ridículo. Isso criava medos irreais (basta ler Drácula para ter uma ideia do que estou dizendo). Stevenson foi um dos autores que criticou esse cenário, abordando em sua obra a fragmentação da personalidade e a destruição do próprio eu.

Ele não foi o único. Oscar Wilde também fez isso em O Retrato de Dorian Gray.

Mas meu foco aqui é O Médico e o Monstro, então não vou me estender em Dorian Gray.

Voltando aos conceitos da psicanálise citados anteriormente, podemos observar como eles aparecem na obra de Stevenson:

Id
- Busca a gratificação imediata de impulsos e desejos primitivos (fome, sede, sexo, etc);
- Age pelo “princípio do prazer”;
- É inconsciente, irracional, a parte mais infantil da mente.

Ego
- Media as exigências do id com a realidade e as regras do superego;
- Age pelo “princípio da realidade”;
- É racional, a parte que se manifesta no mundo, lidando com o “como” satisfazer os desejos de forma aceitável.

Superego
- Representa a consciência moral, os padrões e os ideais internalizados dos pais e da sociedade;
- É moralizador, tenta suprimir os impulsos do id e faz o ego agir de forma idealista, não realista.

Partindo desses conceitos, fica claro que Hyde é o id, Jekyll é o superego, e o ego… não existe.

Espera. O ego não existe?

Não. Ele não existe. Ponto.

Se o ego existisse, Jekyll não teria criado Hyde. Ele teria aprendido a lidar com Hyde — o que claramente não aconteceu.

O grande problema (e a linha tênue entre você ser um humano ou um monstro) está justamente na ausência do ego.

Na Inglaterra do século XIX, com todos os medos exagerados e a rigidez social, as pessoas eram condicionadas ao superego, assim como Jekyll. Tudo o que levavam em consideração era: “isso é errado”, “não posso fazer isso”, “autocontrole”. Isso levava à repressão do id.

Hoje, no século XXI, seria esperado que, com todos os nossos recursos, as pessoas fossem condicionadas ao ego. Mas não são. Elas estão condicionadas ao id. Tudo é sobre gratificação imediata, prazer e “natureza”. Não se pensa em mais nada, não se considera mais nada. É tudo sobre seguir o id e deliberadamente contrariar e ignorar o superego.

Se no passado éramos Jekyll e agora somos Hyde, o que será do futuro? Deixamos de ser conformistas neuróticos para nos tornar monstros?

Preciso destacar que o fato de você pensar racionalmente não significa que você não esteja sendo Hyde. Hyde começou irracional, mas foi se fortalecendo. O fato de ter ficado mais forte e racional não mudou o fato de ele ser um monstro. Pelo contrário: isso apenas o tornou pior.

O que faltou em Jekyll foi o ego. O mediador. A parte racional que não vive com medo (superego), nem vive tudo de forma impetuosa (id), mas a parte que questiona e delibera seus medos e seus impulsos.

O ano está começando agora. Você vai ser Jekyll ou Hyde?

Se escolher ser Jekyll, lembre-se de que ele foi assassinado por Hyde.

Se escolher ser Hyde, lembre-se de que ele certamente foi enforcado ao final da história.

Feliz ano novo!

[E se você já leu O Médico e o Monstro, sabe que o único relato que temos do experimento, é o do Jekyll. Se quiser ler o relato do Hyde, clique aqui]

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