Eu cansei de normalizar essa doença
Imagem: Dan Stevens como Charles Dickens em "O Homem que Inventou o Natal"
Muitos escritores hoje em dia reclamam de um mercado saturado, com dificuldade de se destacar em um ambiente com tanto ruído. Acontece que esse problema já existia, ele só mudou de forma com o passar dos séculos. Na época de Charles Dickens — ou seja, século 19 — a saturação do mercado existia por causa do volume de conteúdo publicado para atender a uma demanda crescente de leitores, de forma praticamente instantânea. Isso te lembra alguma coisa?
Charles era um dos escritores que publicava em fascículos, isto é, publicava suas histórias em partes, capturando a atenção dos leitores com cliffhangers. Apesar de outros escritores publicarem dessa forma, quem popularizou o formato foi ele. Com esse formato, veio a concorrência com literatura barata (Penny Dreadfuls), que se expandiu com o crescimento dos jornais impressos. Imprimir jornais em massa com esses Penny Dreadfuls, tornou a literatura acessível, com baixo custo de produção e alto consumismo. O público tinha opções demais e atenção limitada para tanta oferta. Vou perguntar de novo: isso te lembra alguma coisa?
Dickens sobreviveu e se destacou diante desse caos, porque não se conformou com esse padrão. Além de ter uma estratégia própria para publicar em fascículos, Dickens sabia para quem estava escrevendo. Ele sabia claramente o tipo de leitor que ele queria que consumisse suas histórias, e o tipo que não queria. Ele não se destacou porque se adaptou à demanda massificada de mercado, e sim porque continuou fazendo "a coisa dele" independente do que outros escritores faziam como regra. Enquanto os outros escreviam para a elite, ele escrevia para a classe trabalhadora, que queria exatamente o que ele escrevia. Charles tinha algo para dizer, e escrevia para quem ele sabia que queria ouvir.
Por que estou dizendo tudo isso?
O problema do mercado no século 19 é o mesmo de hoje, mas ao invés de jornais em excesso, temos a internet, e no lugar dos Penny Dreadfuls, temos vídeos curtos e programas de assinatura de livros. Temos um mercado em que a maioria dos leitores assina um serviço para ler, ao invés de comprar livros, e um meio que estimula e inventiva o consumo compulsivo e acelerado de TUDO, mascarando-se na ideia de "acessibilidade". Pensando nesses cenários, Dickens iria odiar ser autor no século 21, mas iria bater o pé e publicar Um conto de Natal, mesmo que não fosse a literatura consumida pelas massas.
Essa reflexão veio ontem a noite quando eu tive um burnout por causa do TikTok (sim). Eu fiz uma conta lá no início de janeiro, na intenção de adaptar o meu marketing em uma plataforma com mais tráfego, mas com o mínimo de esforço possível porque eu não gosto de plataformas com vídeos curtos. Eu sou escritora, eu preciso que minha mente seja estimulada de uma forma diferente. Mesmo que eu vá escrever o romance mais farofa do mundo, eu preciso de um estímulo intelectual para que a criatividade venha. Mas, o estímulo que recebo nessas redes é sempre emocional demais, impulsivo demais, surtado demais. E isso é algo meu, algo que não só afeta, mas prejudica exponencialmente a minha criatividade.
Coloquei limites claros quando voltei ao TikTok. Eu iria agendar vários posts e deixar acontecer... Até perceber que o TikTok não disparava vídeos agendados (ou disparava pouquíssimo), e eu precisava dos números para que a conta aparecesse mais. Sem eu perceber, começou um ciclo quase obsessivo de criar, analisar horários, postar e ficar vigilante em relação a visualizações, curtidas, salvamentos, retenção... Parece pouco, mas ocupa muito espaço mental em quem trabalha escrevendo.
Ontem eu não aguentei mais ficar fazendo isso e decidi que iria dar um "gelo" na minha conta. Não deletar, mas só não dar atenção. Isso porque eu cansei de normalizar essa doença.
No século 19, o mercado estava saturado mas as pessoas ainda tinham um nível de atenção, afinal, para consumir penny dreadfuls, elas tinham que ler os jornais. Hoje, existem evidências claras, científicas e sociais, de que a atenção das pessoas está desaparecendo e isso coincide com a ascenção desses vídeos curtos. Desde que o TikTok surgiu e bombou, e outras redes se moldaram a esse recurso, as pessoas não tem mais paciência para assistir vídeos longos, filmes, para ler textos grandes (como esse), ou para entender subjetividade literária. Eu fiquei surpresa quando descobri que, além de muitos livros serem extremamente explicados em suas descrições, a própria Netflix escreve roteiros pensando em pessoas que estão assistindo vídeo curto enquanto assistem um filme! Isso é bizarro e assustador!
E nesse cenário, todo mundo que precisa vender algo, precisa descobrir como capturar a atenção de um público que a cada dia perde mais e mais essa capacidade sem nem se dar conta. Essa tentativa de capturar atenção cria volume visual e cognitivo que só prende mais ainda as pessoas em um ciclo que está tirando a atenção delas. Por isso, quando a compra acontece, ela é compulsiva. O consumo de filmes e músicas por streaming é compulsivo, e o consumo de livros por assinatura também.
Há quem possa dizer que eu estou exagerando e que eu tenho que me adaptar ao ambiente, mas eu sinto dizer, que isso aqui não é Admirável Mundo Novo pra eu ter o mesmo final que o John, o Selvagem teve. O Charles Dickens não se tornou um clássico por se adaptar ao meio, mas por fazer exatamente o oposto.
Eu não quero ser elitista — pelo contrário, eu acredito na acessibilidade da literatura. Mas acessibilidade real, e não essa acessibilidade mascarada, falsa e imprevisível criada por plataformas de streaming — mas eu sei para quem estou escrevendo. E com certeza, não é para compradores compulsivos do TikTok.
Comentários
Postar um comentário