Por que meus livros não estão no Kindle Unlimited?
Quando eu iniciei na publicação independente, eu quebrei muitas regras. E, provavelmente continuo quebrando mas não tem problema. Afinal, como escritora independente eu tenho o privilégio de escolher como o meu trabalho é distribuído e o que eu realmente quero usar.
Uma das regras que quebrei, foi a de colocar os livros no Kindle Unlimited — programa de assinatura da Amazon. Ok, mais tarde eu até coloquei os livros lá e deixei durante um bom tempo, mas no fim, a melhor decisão seria aumentar um pouco o valor, engolir os 35% de royalties e tirar do programa de assinatura. Eu até durmo melhor com essa decisão.
Vamos a alguns motivos pelos quais as pessoas colocam os livros nesse programa de assinatura.
1. Divulgação: O maior argumento é que é muito mais fácil um escritor emergente divulgar seus livros e conseguir público quando ele está no Kindle Unlimited, pois vários assinantes do programa podem ler "de graça" e aumentar o seu ranking dentro da Amazon
2. Royalties: No Brasil, se o seu livro não estiver no Kindle Unlimited, você ganha 35% de royalties por venda. Esse valor aumenta para 70% se o livro estiver lá, mas isso é uma situação do Brasil, porque em outros países, o escritor não precisa estar no Kindle Unlimited para receber 70% de royalties.
3. Promoções gratuitas: Quando o autor coloca as obras no Kindle Unlimited ele pode fazer promoções gratuitas dos livros, em que eles ficam gratuitos por um período para os leitores baixarem. Isso aumenta o ranking na Amazon e o número de unidades "vendidas" (fiz essa promoção no meu aniversário ano passado inclusive, os números foram estrondosos mas eu não faria de novo)
Agora, vamos aos motivos de eu não deixar mais os meus livros lá, apesar dessas aparentes vantagens. Posso resumir em duas palavras: risco e imprevisibilidade.
1. Pagamento por página: Quando um leitor escolhe ler seu livro pela assinatura, o escritor ganha por página lida. Antes de entrar no mercado, pareceu muito vantajoso, até eu descobrir que a Amazon paga menos de um centavo por página lida, e que esse valor é instável e muda quase todo mês. Vamos supor que o meu marketing é estável e sempre traz novos leitores. Se esses novos leitores compram o meu livro, eu consigo estimar quanto eu recebo com base na porcentagem de royalties e na quantidade de livros vendidos. Mas, se esses leitores escolhem ler pelo Kindle Unlimited, eu não tenho noção de quantas unidades foram baixadas, nem de quanto vai entrar no meu bolso no final do mês, porque o valor por página lida sempre diminui (e quanto mais livros os assinantes leem na assinatura, menor o valor fica para os autores porque precisa ser dividido para todos os que estão dentro do programa)
2. As promoções de 1.99 e o "jeitinho brasileiro": Várias vezes no ano, a Amazon faz uma promoção em que você pode assinar o Kindle Unlimited por três meses pagando somente 1.99. Muita gente aproveita essa promoção e assina. O problema é que boa parte dos assinantes do Kindle Unlimited (especificamente aqueles que usam o dispositivo Kindle) assina o Kindle Unlimited, pega todos os livros que puder na assinatura (eles limitam a 10 ou 20, e para pegar outros você vai devolvendo), aí desliga o wi-fi do leitor digital para conseguir ficar com os livros mesmo depois que a assinatura expirar. Quando o leitor faz isso, o autor não recebe por página lida, pois elas só são contabilizadas quando o aparelho está conectado a internet. Caso haja uma assinatura ativa, as páginas são sincronizadas depois, mas na maioria dos casos, a pessoa só vai ligar o wi-fi depois que a assinatura expirou, então não tem páginas para sincronizar porque a assinatura não existe. O que significa no fim? O autor que já recebe pouco, fica sem nada.
3. Exclusividade e risco de banimento: O autor que publica no Kindle Unlimited não pode publicar o livro digital em nenhum outro lugar. O livro se torna exclusivo da Amazon e o autor fica preso a aquela plataforma sem poder explorar nenhum outro caminho. Sem contar que essa exclusividade já colocou muitos autores em risco, pois a Amazon já baniu contas de autores sem motivo, alegando quebra de exclusividade (que normalmente acontecia quando os autores eram pirateados, e mesmo sendo uma situação que eles não tinham muito controle, eram penalizados).
4. A Amazon pode reter os royalties: Eu já vi muitos autores reclamando que não receberam os royalties pelas páginas lidas porque a Amazon alegou comportamento suspeito. Eles não pagam royalties se, por exemplo, os leitores passarem as páginas muito rápido, ou irem direto para o final do livro. A Amazon entende que isso é um jeito de burlar o sistema de páginas só para o autor ser pago, aí eles não pagam, então se um leitor ler o livro mais rápido, ou pular para o final para ver alguma coisa (a versão kindle de espiar a última página), o autor também vai ser penalizado.
5. Consumo compulsivo e desqualificado: algo que aprendi com a promoção gratuita que fiz ano passado, é que os leitores muitas vezes não estão interessados no livro, e sim em volume. Quando um livro está gratuito ou em um programa como o Kindle Unlimited, muitos leitores vão pegar o livro apenas porque podem, não porque querem ler. E isso não converte em nada para o autor. Ele não ganha leitores fiéis, e nem dinheiro por isso. A Amazon estimula o consumo compulsivo de eBooks, e sabe que as redes influentes como BookTok e Bookstagram levam diretamente a isso (só lembrar do evento "Encha seu Kindle". Quantos livros que você pegou lá você realmente leu?). Mas o escritor não quer “compradores” compulsivos. Ele quer leitores e pessoas que paguem de verdade pelo trabalho que ele fez por reconhecer o valor daquela obra.
Esses são alguns motivos para eu não querer meus livros dentro do Kindle Unlimited, mas com certeza existem muitos outros. Apesar da Amazon ser o único lugar onde estão meus eBooks, eu ainda me sinto melhor sabendo que não estou presa a eles e que tenho a liberdade de usar outras plataformas quando bem entender.

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