Escrever a mão faz eu me sentir como a Jane Austen, Mary Shelley, Charles Dickens... Você entendeu.

Uma das maiores (re)descobertas que fiz sobre a minha escrita nos últimos tempos é que eu consigo criar muito melhor quando estou diante de uma folha em branco e uma caneta, do que quando estou sentada na frente do computador.

Por mais que meus cinco primeiros livros tenham sido feitos quase que 100% no computador, eu sentia uma leve ansiedade em relação ao produto final. Eu editava muito o texto e mexia muito em diagramação quando o foco devia ser terminar o primeiro rascunho. Passava horas em frente ao computador, escrevendo na base de uma "ansiedade criativa" — momento em que eu tinha muitas ideias e queria explorar tudo o quanto antes.

Produzia bastante, mas terminava o livro exausta e com ansiedade para publicar. Era como se eu estivesse cheia de cafeína no meu sistema, mas sem ter tomado café.

Foi quando, após um longo hiato, eu comecei o meu 6° livro (que ainda estou escrevendo e o plot é quase um segredo de estado). Escrevi os dois primeiros capítulos direto no computador, e depois continuei escrevendo em folhas em branco para digitar depois. Não tinha a menor intenção de escrever a história inteira em papel, porque digitar é muito chato e a quantidade de papel se tornaria uma bagunça!

Mas a história que estava escrevendo era um pouco difícil para mim e a escrita só estava fluindo quando eu escrevia no papel, sem distrações, sem 40 mil pesquisas no Google e sem milhões de notas de rodapé (quem leu meus livros sabe que amo notas de rodapé). O que percebi principalmente quando ia digitar depois é que a escrita parecia mais natural e que eu estava aproveitando melhor o processo. 

Então caiu a ficha: meus livros favoritos foram escritos assim e datilografados depois. Claro que no século XIX não tinha outra opção a não ser escrever no papel, mas eu não falo simplesmente da época e sim do processo que talvez os autores não deviam abandonar completamente. 

Aqui estão algumas vantagens que percebi por escrever primeiro à mão. 

- É mais fácil manter uma rotina de escrita porque você não depende do computador ou da internet para escrever, podendo assim escrever a qualquer momento. 

- O perfeccionismo diminui porque o seu rascunho, literalmente, ninguém vai ler. Está manuscrito e todos dizem que ninguém deve ler o seu primeiro rascunho, mas isso trava muitos autores que escrevem direto no computador, pois o rascunho parece oficial demais.

- Simplifica e flexibiliza o planejamento. O que eu mais vejo por aí são aqueles templates do Notion cheios de abas com milhões de detalhes sobre os personagens, o mundo e o enredo. Sabe o que isso me causa? Rigidez e incompetência, porque eu nunca iria olhar aquela planilha gigante. O papel permite que você desenvolva a ideia de forma progressiva e registre novas mudanças com mais facilidade, enquanto te mantém conectado ao que já estava escrevendo. 

- A edição fica muito mais fácil porque, enquanto você digita, já tem um espaço entre você e o que você escreveu antes, que permite identificar frases ou palavras que podem ser cortadas e substituídas. Particularmente, acho muito difícil fazer isso quando o livro inteiro está digitado. 

Para concluir, o processo criativo varia para cada autor e eu seria hipócrita se dissesse que o meu jeito é o jeito certo (afinal, não estamos no Cobra Kai). Mas é um fato comprovado por autores clássicos que quanto menos distrações e menos rigidez, mais honesta a história se torna, e eu redescobri essa honestidade quando voltei a escrever só com papel e caneta. 

(E esse texto foi todo escrito assim)

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