Analisando as 3 adaptações de O Conde de Monte Cristo que já assisti

O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, é com certeza uma das obras literárias que mais foram adaptadas para as telas nos últimos tempos. E não é por menos. Todos querem colocar as mãos em uma obra tão lendária, incluindo a infeliz da Netflix que anunciou recentemente que estava fazendo uma adaptação ridícula chamada A Condessa de Monte Cristo (que se eu acreditasse em fantasmas iria desejar muito que o fantasma do Alexandre assombrasse a vida de todos os membros dessa produção até ela ser cancelada).

Mas não vamos falar sobre como a Netflix lucra com rage bait em cima de clássicos de domínio público. Vamos falar sobre as três adaptações dessa obra que assisti, e que, creio eu, são as três mais recentes. Tenho coisas a dizer sobre cada uma delas, e já adianto que nenhuma é perfeita. Um livro denso como aquele é difícil de ser adaptado, mas existe limite para tudo. Uma das adaptações funcionou com mudanças horrendas, outra teve mudanças que não fazem o menor sentido narrativo, e outra teve mudanças positivas que funcionaram, pois todo o conjunto se dedicou a manter fidelidade ao livro.

Outro detalhe interessante é que, independente de fidelidade ao original, todos esses filmes são bons. Pessoas que não conhecem a obra de Dumas, teriam grandes chances de gostarem dessas adaptações, por serem filmes bem produzidos e com bons elencos. Vamos por ordem cronológica.

(Obviamente, spoilers adiante)

O Conde de Monte Cristo (2002, com Jim Caviezel)



Eu faço parte do tipo de gente que acabei de descrever. Eu assisti esse filme anos atrás, sem ter lido o livro, sem sequer conhecer a história. E eu amei esse filme. A ideia de um personagem ser injustiçado e voltar poderoso para se vingar de seus algozes me enche os olhos, e o romance na época me entreteu bastante, principalmente o dramalhão quando foi revelado que Albert era filho de Edmond, não de Fernand. É um bom filme…

Mas que adaptação horrível!

Não estou brincando. Tenho memória afetiva, a última coisa que eu queria era falar mal desse filme, mas depois que se lê o livro, não dá. As semelhanças de enredo são mínimas, quase inexistentes. Pegaram o esqueleto da história, mas alteraram o resto, foi isso.

As principais diferenças foram:

1. Amizade entre Edmond Dantès e Fernand Mondego: Essa amizade não existe no livro. Fernand Mondego é primo de Mercedes, noiva de Edmond, e só conhece Edmond depois que ele volta à Marselha como capitão do Pharaon. A traição, no livro, não veio de um amigo, e sim de um rapaz mesquinho que queria casar com a prima.

2. O drama no casamento de Mercedes e Fernand: No livro eles são um casal perfeitamente normal nos moldes da sociedade parisiense da época, e a presença do Conde na vida deles não interfere em nada disso, enquanto no filme somos apresentados a um casamento cheio de infelicidade e infidelidade. Fernand trai Mercedes, e ela sabe, e ela não o ama, casou com ele por um motivo a parte - que é o próximo tópico.

3. Família DE MORCERF: Por algum motivo, o filme ignorou o nome de Morcerf e deixou apenas o nome Mondego, mas originalmente a família é Conde Fernand de Morcerf, Condessa Mercedes de Morcerf e Visconde Albert de Morcerf - filho LEGÍTIMO de Mercedes com FERNAND. No filme, Mercedes se casa às pressas com Fernand para esconder a gravidez que veio de seu relacionamento com Edmond, enquanto no livro, Mercedes só se casou com Fernand anos após saber da "morte" de Edmond. Essa família é complexa no livro, mas não é essa novela toda que fizeram no filme.

4. A religiosidade de Edmond Dantès: Edmond, no filme, para de acreditar em Deus, e nem parece crer na Providência, ele é só um vingador, enquanto no livro, de forma até contraditória, a sua fé faz parte de sua vingança, pois ele acredita que é um agente da Providência, e que Deus o escolheu para ser o agente da punição de Fernand, Villefort e Danglars.

5. O título de Danglars (e... tudo relacionado a ele): O filme escolheu ignorar que Danglars é um barão. Na verdade, esse foi o vilão mais superficial do filme. Não tinha título, não tinha família e não tinha aquela ambição excessiva que tanto irritava no livro. Foi ridículo. É tudo que tenho a dizer.

6. Tem morte demais nesse filme: Para começar, Fernand matou Noirtier como parte de um acordo com o procurador de Villefort. O que foi isso ????? Depois, o Conde matou Danglars enforcado em um barco, sendo que o ponto da história era justamente Edmond não sujar as mãos… e falando nisso teve o duelo de espadas patético contra Fernand que ele morreu empalado. O livro não precisava desse tanto de morte não, e as que aconteceram foram consequências, não assassinato deliberado.

7. Por último, porque esse filme tem falhas demais para listar tudo, o final feliz de Mercedes e Edmond: Não tem coisa mais clichê hollywoodiano do que os amantes se reencontrarem depois de anos e viverem felizes para sempre com o filho deles. Mas não tem nada disso no livro. Mercedes e Edmond fazem as pazes no final da obra de Dumas, mas nenhum dos dois está em condição de reatar o que tiveram no passado. Ambos reconhecem que o tempo passou e vivem bem com isso. Mercedes tem um final agridoce após o suicídio de Fernand (sim, nada de duelo de espadas) pois ela fica pobre, apesar de uma ajuda que o Conde deu, e Albert se alista. Eles não tem mais as mesmas vidas de antes, mas vão se reconstruir. Já Edmond, no livro, tem um final feliz partindo de navio com Haydée, sua protegida que o ama (e que não está nesse filme, infelizmente) após deixar uma herança para Maximillien Morrel e Valentine de Villefort (que também não estão no filme).

Portanto, o filme de 2002 foi a adaptação que mencionei que teve mudanças que não fizeram o menor sentido narrativo.

O Conde de Monte Cristo (2024, com Pierre Niney)


Prometi para mim mesma que só assistiria esse filme quando acabasse o livro, mas não fiquei imune aos spoilers, então soube de mudanças negativas antes mesmo de assistir. No entanto, fui surpreendida positivamente, apesar das mudanças.

Esse filme foi um pouco mais caricato no sentido geral, mas conseguiu me lembrar um pouco mais a frieza e loucura do livro do que a adaptação de 2002. Aqui estão algumas diferenças:

1. O Fernand... de novo: O que os diretores de cinema tem contra adaptar esse personagem desprezível do jeito que ele foi escrito? Aqui ele ainda é primo de Mercedes e amigo de infância do Edmond, e é rico. O pai de Edmond trabalhava para a família de Morcerf, e Edmond cresceu com eles. A propósito, ao contrário da primeira adaptação, o sobrenome Mondego nem é falado. Desde o início eles já são De Morcerf, ignorando o fato de que no livro esse sobrenome só veio depois que Fernand conseguiu prestígio na sociedade.

2. Villefort, Danglars e o arco em Auteuil: O Danglars foi razoavelmente adaptado aqui, mas toda a dinâmica dele com Villefort não faz muito sentido. No livro sabemos que a esposa de Danglars no passado deu à luz a um filho de Villefort na casa em Auteuil. Isso também acontece nesse filme, mas Danglars  viu a futura baronesa em Auteuil com Villefort antes de se casar com ela, o que me levou a crer, a princípio, que talvez ele soubesse de algo. Mas quando o Conde comprou essa propriedade e começou a contar a história sobre o bebê enterrado no jardim, Villefort e a baronesa Danglars ficaram tensos... enquanto o Barão achava graça. Ficou meio confuso para mim. Além disso, Villefort não tem nenhuma família aqui.

3. Noirtier foi substituído por Angele: No livro, foi uma carta para o sr. Noirtier que acabou levando a prisão de Edmond. Noirtier era um bonapartista, e o pai do procurador de Villefort, que trabalhava para o rei. O motivo de Edmond ter sido preso, foi que Villefort não queria seu nome associado a algum escândalo com bonapartistas, então incriminou Edmond falsamente para livrar a barra do pai... e a sua. Nesse filme, Noirtier não existe. Ele foi substituído por Angele, irmã do procurador, mas que cumpre função semelhante na trama.

4. Andrea Cavalcanti: Esse psicopata desequilibrado no livro, no filme virou uma vítima. O filho bastardo do procurador com a baronesa foi "adotado" pelo Conde e fingia ser um príncipe, mas nutria um forte desejo de vingança contra o pai. Esse desejo acabou levando a sua morte. No livro, ele é só um bandido que o Conde contrata para fingir ser um príncipe, mas que o trai, e por consequência dessa traição também sofre a vingança do Conde.

5. Haydée e Albert de Morcerf: Essa adaptação foi patética. O pai de Haydée (o Paxá de Janina) foi traído pelo oficial francês que deveria protegê-lo, e esse oficial era Fernand Mondego. Ele vendeu Haydée e a mãe dela como escravas, e mais tarde, o Conde comprou a liberdade dela. Ela também queria se vingar de Fernand, e sequer interagiu com a família dele no livro (ela teve uma interação bem curada pelo conde com Albert no livro, apenas uma vez). Mas, por algum motivo, os roteiristas acharam que seria uma boa ideia que os dois se apaixonassem no filme, e que Haydée não fosse tão leal assim ao Conde, escondendo coisas dele e o culpando pela morte de André.

No fim, essa foi a adaptação que funcionou com mudanças horrendas. Eu me diverti muito com esse filme... mas as mudanças foram terríveis.

Agora a minha favorita...

O Conde de Monte Cristo (2024, minissérie com Sam Claflin)

Não parece justo comparar dois filmes a uma minissérie que claramente teve tempo de adaptar vários arcos... mas eu vou, porque essa é uma adaptação de respeito.

Foi maravilhoso poder ver os arcos principais do livro adaptados com tanto cuidado e respeito. Não senti que nada nessa série foi apressado, apesar de ter apenas 8 episódios. O essencial do livro foi adaptado, ainda que tenha apresentado algumas mudanças. Mas, em comparação com as mudanças feitas nas outras adaptações, essas não alteraram o enredo de forma significativa..

1. O Benedetto/Andrea Cavalcanti foi substituído pelo Luigi Vampa: Tive que falar dessa primeiro porque foi minha preferida. No livro, o Benedetto é um bandido (e filho bastardo do Villefort e da Baronesa Danglars) que foi contratado pelo Conde para fingir ser um príncipe italiano e enganar a família Danglars, mas que acaba traindo o Conde e também se transforma em uma vítima dele mais tarde. Na série, ainda que o plot do filho bastardo exista, ele não se transforma nesse príncipe. O que acontece é que Edmond entra em contato com o Luigi Vampa (outro bandido do livro, que trabalha para o Conde e tem uma dívida com ele) para que ele vá até Paris e finja ser o Conde Spada. O objetivo é o mesmo: enganar a família Danglars para que o barão desfaça o noivado de sua filha com Albert de Morcerf. O personagem interpretado por Vampa cumpre esse papel na narrativa de forma muito satisfatória, e sem o arco da traição, o que achei uma mudança muito bem-vinda e que fez sentido, pois o arco de Benedetto adicionaria mais subtramas e personagens que não caberiam em oito episódios.

2. O papel de Caderousse: Foi a primeira mudança que percebi e que fiquei confusa inicialmente, pois Caderousse no livro foi um personagem que também foi punido pelo Conde, pois também tentou enganá-lo (inclusive, com a ajuda de Benedetto!). Nessa série, Caderousse é um dos primeiros a saber a identidade do Conde, e trabalha para ele como um espião em Paris. É ele quem descobre tudo sobre as famílias de Villefort, Morcerf e Danglars para passar para o Conde, enquanto no livro, o Conde descobre com ajuda de outros aliados, e muitas vezes, como ele mesmo, utilizando outras personas.

3. Abade Busoni, Lord Wilmore e Simbad o Marujo: Essas foram três identidades que Edmond criou no livro para se infiltrar na sociedade (com máscaras, perucas e tudo o que tiver direito). O Abade Busoni era uma figura religiosa, o Lord Wilmore era o rival inglês do Conde, e Simbad o Marujo foi sua primeira persona, que era um marinheiro. Dos três, apenas Simbad apareceu na série, e foi uma menção breve, sem caracterizações absurdas.

4. Jacopo: Chegou um ponto do livro que senti falta do Jacopo, porque esse personagem não participa do arco de Paris. Mas, as adaptações sempre colocam Jacopo como o mordomo principal do Conde, provavelmente para reduzir a quantidade de personagens, e nessa série não foi diferente.

5. Haydée: O papel dela nessa série foi indubitavelmente melhor do que a descaracterização patética do filme francês de 2024. Apesar de ter sido curto, consegui enxergar muito mais a personagem nesse pouco tempo, do que nas três horas do outro filme. O que me decepcionou foi que, mais uma vez, Haydée e o Conde não ficaram juntos como ficam no livro (o que não faz sentido nenhum, pois Haydée não é uma adolescente e a relação deles não é predatória nem problemática, e sim uma escolha DELA, mais do que do Conde).

6. Nada de duelos de espada: Só por isso, essa série já ganha todos os pontos. Apesar de não vermos (porque isso aumentaria muito a classificação da trama), nós ouvimos bem claramente a cena do suicídio de Fernand de Morcerf. A última interação dele com o Conde de Monte Cristo adaptou minuciosamente cada detalhe descrito no livro. A expressão de Fernand quando o Conde revela que é Edmond, seguida de sua volta para casa, e de sua morte foi a parte mais aguardada da trama.

7. A prisão de Danglars: O Barão Danglars não é preso no livro, mas na série, após o fiasco do casamento de Eugenie com o "Conde Spada", o Barão, a Baronesa e Lucien Debray vão para a prisão. Esse foi o arco mais diferente em comparação ao livro que inclui o sequestro do Barão e um "perdão" do Conde. Mas, pelo andamento da série, essa mudança não me incomodou.

Finalizando, é óbvio que essa foi a adaptação que teve mudanças positivas que funcionaram, pois todo o conjunto se dedicou a manter fidelidade ao livro, e naturalmente foi a minha preferida.

Mas, é como eu disse na minha resenha sobre o livro: Não importa quantas adaptações existam, ou o quão fiéis elas sejam, leia o original, porque nunca nada vai se igualar a o que o autor da obra nos deixou.

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